sexta-feira, 1 de julho de 2011

REVOLUÇÃO RUSSA








O CAMPONÊS RUSSO

A mais importante e tradicional estrutura agrária na Rússia era o mir, a comunidade aldeã. A propriedade do solo era coletiva e a apropriação dos frutos da terra também. Assim, não havendo diferenças econômicas, não havia diferenças sociais.
A partir do século XV, a servidão avançava na Rússia, enquanto o feudalismo da Europa Ocidental declinava. O Estado imperial centralizava o poder nas mãos dos czares. O mir perdia força como realidade camponesa.
O avanço posterior do capitalismo exigia o fim da servidão e das comunidades aldeãs, consideradas um estorvo às novas relações de produção. A terra tornou-se um bem privado, comercializado, produtor de bens para o mercado. Surgiram os kulaks, burgueses rurais proprietários das terras de maior extensão. Enquanto os membros do mir se enfraqueciam e se endividavam com o Estado e com os burgueses, os kulaks se fortaleciam e enriqueciam. O capitalismo no campo abriu um fosso entre a massa camponesa empobrecida e sem terra e a burguesia rural.

O OPERÁRIO RUSSO

Massas camponesas sem terra migraram para centros urbanos, oferecendo sua força de trabalho a preços baixíssimos, em função do enorme exército de reserva. A Indústria na Rússia, iniciada nos fins do século XIX, era financiada e dominada pelo capital externo. As empresas concentravam-se em pólos industriais, como o de Moscou e Petrogrado (São Petersburgo).
O caráter concentracionista das indústrias em poucos pólos provocava a concentração do proletariado, que passava a ter consciência de classe. Por outro lado, como as grandes indústrias eram controladas pelo capital externo, as pequenas, de capital russo, não resistiam à concorrência e faliam. O capital internacional sufocou o capital nacional, gerando descontentamento na burguesia russa.

O ESTADO RUSSO

O absolutismo monárquico foi derrubado na Inglaterra no século XVII, com a Revolução Gloriosa. Na França, caiu em 1789, e, em toda a Europa, no período das guerras napoleônicas. A Restauração, resguardada pela Europa de Metternich do Congresso de Viena, não resistiu às ondas revolucionárias de 1820, 1830 e 1848.
Na Rússia, em pleno século XX, o absolutismo, a autocracia czarista, continuava, apoiada nas forças de conservação: aristocracia, alto clero e alto comando militar. “O Imperador de todas as Rússias é um monarca autocrata e ilimitado. O próprio Deus determina que o seu poder supremo seja obedecido, tanto por consciência como por temor”, dizia o Artigo I das Leis Fundamentais do Império, publicadas em 1892.

AS IDEOLOGIAS RUSSAS

Várias tendências ideológicas existiam na Rússia. Ora se aproximavam, ora se chocavam entre si. Os ocidentalistas defendiam as idéias francesas e inglesas, vitoriosas que foram nos seus países. Os eslavófilos, ao contrário, defendiam a tradição eslava do povo russo, o pan-eslavismo centrado na Rússia. Já o Movimento dos Narodniques pregava o socialismo agrário, fundado nas comunidades aldeãs do passado, um resgate do mir.
O Partido Social-Democrata Russo foi criado em 1898 e tinha ideologia marxista. Em 1903, durante uma convenção, os sociais-democratas dividiram-se em dois. Para os mencheviques (minoria dos deputados da convenção), a Rússia deveria fazer uma revolução liberal, nos moldes da inglesa e da francesa, derrubar o absolutismo, fazer crescer o capitalismo, para depois realizar a revolução proletária, seguindo ortodoxalmente a receita de Marx, que afirmava que a revolução proletária seria iniciada nos Estados de capitalismo avançado. Para os bolcheviques (maioria dos deputados da convenção), a revolução proletária deveria ser imediata, ao lado dos camponeses: o martelo e a foice organizados por um partido centralizado, disciplinado e combativo, formador de revolucionários profissionais, uma vanguarda revolucionária que comandaria as ações da revolução das massas.

1905, “O ENSAIO GERAL”

Em 1905, o governo czarista colocou a Rússia numa desgastante guerra contra o Japão, disputando o domínio sobre a Coréia e áreas na Manchúria, na China. Durante o conflito, um movimento pacifista foi esmagado pelas tropas do czar: foi o “Domingo Sangrento”.
A derrota na guerra foi humilhante e o czar teve de assinar a paz nas condições impostas pelo Japão. A isso se somou uma grande depressão econômica. Os trabalhadores paralisaram a economia, com greves e agitações. No mar Negro, marinheiros do encouraçado Potemkin se rebelaram. A aura de sagrado e intocável do czar foi abalada. Nicolau II, pressionado, criou a Duma, uma assembléia legislativa que, depois, acabou caindo sob seu domínio.
Por outro lado, uma nova forma de organização popular nascia e crescia, os sovietes, conselhos de representantes do povo: sovietes de camponeses, sovietes de operários, sovietes de soldados, sovietes de marinheiros...

A RÚSSIA NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Quando a Rússia foi derrotada pelo Japão, em 1905, seus esforços se voltaram para os Bálcãs, apoiando o pan-eslavismo da Sérvia contra a Áustria, que dominava os Estados balcânicos. A Áustria era aliada da Alemanha, cujos interesses expansionistas em direção a Bagdá (Estrada de Ferro Berlin-Bagdá) passavam pelos estreitos de Bósforo e Dardanelos, nos Bálcãs. O expansionismo russo entrou em choque direto contra o expansionismo alemão na região.
A Rússia, a Inglaterra e a França criaram a Tríplice Entente, em oposição à Tríplice Aliança, formada pela Alemanha, pela Itália e pelo Império Austro-Húngaro.
Após o Atentado de Sarajevo, em que morreu o herdeiro austríaco, a Áustria atacou a Sérvia. A Rússia, em apoio à Sérvia, atacou a Áustria, que era apoiada pela Alemanha. Iniciava-se a Guerra Mundial.
Ainda no primeiro ano da guerra, a Alemanha empreendeu uma enorme ofensiva contra a Rússia, planejando vencer na Frente Oriental para, depois, atacar a França, na Frente Ocidental. Entre o final de 1914 e o final de 1916, a Rússia, despreparada para uma guerra moderna, perdeu mais de 4 milhões de soldados.
Numa jogada de cena político-militar, o czar Nicolau II passou a comandar o exército, deixando as decisões do governo em mãos de burocratas e da czarina, frágil e dominada psicologicamente pelo místico e charlatão Rasputin. Ao desastre econômico, somava-se o desastre político; à fome e ao desespero do povo, somava-se o enfraquecimento político-institucional do Estado Imperial anacrônico, ultrapassado pela História.

A REVOLUÇÃO MENCHEVIQUE

No início de março de 1917 (23 de fevereiro do calendário Juliano), greves em Petrogrado contra a guerra, a fome, os elevados preços dos alimentos, transformaram-se na Revolução de Fevereiro. Caiu Nicolau II, da dinastia Romanov, que governava a Rússia há mais de três séculos, “sob a proteção de Deus”.
O Governo Provisório de Lvov e Kerensky manteve a Rússia na Primeira Guerra Mundial, frustrando a população para agradar as potências capitalistas da Entente. Cerca de 2 milhões de soldados desertaram, incentivados pelos sovietes que agiam no front. Os sovietes formaram um governo paralelo: “Kerensky governa a Rússia, os sovietes governam os russos!”
O Pravda publicou as Teses de Abril, de Lênin. Paz, Pão e Terra era o grito revolucionário bolchevique, ao qual se somava o de “Todo Poder aos Sovietes”. Defendia a nacionalização dos bancos e das demais empresas estrangeiras, a socialização da terra e a saída da Rússia da guerra.

A REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE

Em 1903, os bolcheviques eram a maioria da convenção, embora não fosse a maioria dos membros dos sovietes, mas os efeitos da Primeira Guerra e do desastre do governo liberal menchevique fizeram crescer a presença bolchevique que, agora, era maioria de fato: 600 mil membros altamente disciplinados e combativos sustentavam o Partido e a revolução soviética.
Entre 24 e 25 de outubro de 1917 (6 e 7 de novembro, no calendário gregoriano), os revolucionários derrubaram o governo Provisório e os sovietes chegaram ao poder. Dois meses e quinze dias depois, Lênin, os sovietes e o povo russo comemoraram o fato deque sua revolução vivera mais tempo do que a Comuna de Paris, primeira experiência prática de comunismo moderno.
No primeiro semestre de 1918, Lênin assinou com a Alemanha o Tratado de Brest-Litovsky, pelo qual a Rússia saiu da Primeira Guerra Mundial. “A Rússia renunciava à Polônia, Ucrânia, Finlândia, Estônia, Lituânia e Letônia, perdia três quartos de suas minas de ferro e carvão e pagava forte indenização.” (AQUINO, Rubin e outros, História das Sociedades). Aos críticos do tratado, inclusive bolcheviques, Lênin respondia ser preciso salvar a revolução a qualquer preço. O povo precisava das duas mãos para estrangular a burguesia russa e seus aliados. Os soldados e marinheiros russos saíram das trincheiras da guerra contra a Alemanha e voltaram para casa, levando suas armas e enorme experiência em usá-las. Antes da guerra, eram apenas camponeses ou operários, durante a guerra eram soldados e agora eram camponeses-soldados e operários-soldados. E eram milhões de homens.

A GUERRA CIVIL (1918 a 1921)

A contrarrevolução foi iniciada por antigos oficiais czaristas e ganhou a simpatia de clérigos, mencheviques, liberais e da nobreza. Durante a Primeira Guerra Mundial, os sovietes de soldados do front politizavam não só os soldados russos, mas de outros países, com panfletos revolucionários contra aqueles que enviaram esses homens à guerra, a burguesia internacional.
Governos europeus e o norte-americano viam suas tropas alimentarem-se de idéias socialistas, uma ameaça para seus próprios regimes. Por isso, as potências capitalistas, aliadas ou inimigas entre si, passaram a apoiar os Russos Brancos contra os Russos Vermelhos. Para elas, era fundamental esmagar a revolução socialista em seu berço.
O governo soviético reforçou o Exército Vermeho, comandado por Trotsky, e decretou o Comunismo de Guerra, medidas radicais que aceleraram a comunização dos meios de produção, como as terras e as fábricas. O pensador Maurice Crouzet diz:
“...o seu objetivo é uma estrita regulamentação do consumo e da produção, num país cercado, mas, ao mesmo tempo, provoca transformações na estrutura econômica (...) Há, portanto, expropriação da grande indústria e da maior parte das pequenas empresas; o simples controle operário previsto foi substituído pela gestão operária.”
Os Russos Vermelhos venceram a guerra civil, mas o caos econômico estava instalado: baixa produção de bens, sabotagens dos antigos proprietários, falta de experiência prática na gestão da nova ordem econômica revolucionária. Rubin Aquino, já citado, nos ensina: “Os camponeses sentiam-se ameaçados pelas requisições forçadas. O poder bolchevista enfrentava sua primeira grande crise com as próprias forças que o apoiavam.”

A NEP (1921 a 1927)

Para recuperar a economia, Lênin e os sovietes criaram a NEP – Nova Política Econômica, um misto de socialismo e capitalismo. Na concepção soviética, era preciso dar um passo para trás, recuar ao capitalismo, para dar dois passos à frente, em direção ao socialismo. O comércio interno foi liberado, pequenas empresas foram devolvidas aos seus antigos proprietários privados. Os kulaks receberam de volta suas terras. Ao mesmo tempo, o Estado controlava os transportes, os bancos, a grande indústria, o comércio externo. A Rússia começou sua recuperação econômica, com a produção industrial e agrícola superando a dos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
Durante a vigência da NEP, em 1922, uma nova constituição entrou em vigor, dando origem à URSS, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. O poder supremo era o Congresso dos Sovietes da União, restando aos Estados Federados alguma autonomia. O Partido Bolchevique passou a se chamar Partido Comunista da União Soviética – PCUS, verdadeira fonte do poder.

STÁLIN X TROTSKY

Qual seria o destino da Revolução? Até a década de 1920, as tentativas de internacionalizá-la fracassaram. Trotsky e seus seguidores insistiam na tese da revolução permanente e internacional para consagrar a nova ordem socialista. Stálin e seus seguidores, observando o isolamento internacional da Rússia, insistiam que esse isolamento não impediria a vitória revolucionária na própria Rússia, possuidora de recursos materiais e humanos suficientes para o “socialismo num só país”, ou seja, na URSS.
Com a morte de Lênin, em 1924, a disputa se acirrou entre as duas vertentes e a de Stálin venceu. Começava a Era Stalinista, que duraria até 1953.

A ERA STALINISTA

A GOSPLAN (Comissão do Conselho do Trabalho e da Defesa) havia elaborado um plano econômico para ser implantado após a NEP e tinha um prazo de cinco anos para atingir seus objetivos. Era o Primeiro Plano Quinquenal, que entrou em vigor em 1928. Suprimiram-se as propriedades individuais e desenvolveu-se a indústria pesada, de bens de equipamento, em detrimento dos bens de consumo. No campo, formaram-se os kolkoses, cooperativas de produção entre camponeses, e os sovkoses, fazendas estatais com assalariamento dos camponeses.
Estava iniciado o caminho para a Rússia tornar-se potência mundial, posição consolidada após o Segundo Plano Quinquenal. A Crise de 1929 e a Grande Depressão que dela nasceu, atingiu todo o mundo capitalista, mas não arranhou e economia soviética. Para saírem da crise, os governos capitalistas abandonaram o liberalismo clássico, ortodoxo, e adotaram a intervenção do Estado na economia, com empresas estatais, planejamento econômico, protecionismo, e o Estado de Bem-Estar Social. Ou substituíram a democracia liberal pelas ditaduras totalitárias anticomunistas, como o fascismo e o nazismo.
Do ponto de vista político, a cúpula do poder stalinista se fechava, tornando-se totalitário. Expurgos, prisões de simples desafetos, campos de concentração e execuções passaram a ser as armas contra opositores ao modelo de Estado hipertrofiado. Foi o caso de muitos líderes revolucionários do início da revolução, como Trotsky, morto assassinado a mando de Stálin em 1940, no México.

Um comentário:

  1. http://www.youtube.com/watch?v=S1TQSmuucqw&playnext=1&list=PL69A1E8C05DF1034A

    Olá Wagner, achei esse video que fala um pouco sobre a história da revolução russa, achei que iria gostar.

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