terça-feira, 25 de janeiro de 2011

SEPÉ TIARAJU: MAIS UMA HISTÓRIA BRASILEIRA


Busco postar neste blog a história de alguns brasileiros que não fazem parte dos livros didáticos e apostilas destinadas ao Ensino Médio e a cursos pré-vestibulares. Já postei algumas, mas há muitas outras histórias.

Sepé Tiaraju foi um índio guarani, nascido em uma missão jesuítica na região dos Sete Povos das Missões. Pelo Tratado de Madri, de 1750, a região foi incorporada ao domínio português, decisão recusada por jesuítas e índios, pois não aceitavam deixar a terra de seus ancestrais. Eclode a Guerra Guaranítica, da qual Sepé Tiaraju foi um dos líderes. Morreu lutando pela terra, pela terra de seu povo. A ele é atribuída a frase:

“ESTA TERRA TEM DONO, E NOS FOI DADA POR DEUS E SÃO MIGUEL!”

Em 2009, foi reconhecido como um dos heróis brasileiros e seu nome incorporado ao “Livro de Aço” do Panteão da Liberdade e da Democracia.

LEI Nº 12.032, DE 21 DE SETEMBRO DE 2009
Inscreve o nome de Sepé Tiaraju no Livro dos Heróis da Pátria.
O VICE – PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no exercício do cargo de PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1o Em comemoração aos 250 (duzentos e cinquenta) anos da morte de Sepé Tiaraju, será inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, que se encontra no Panteão da Liberdade e da Democracia, o nome de José Tiaraju, o Sepé Tiaraju, herói guarani missioneiro rio-grandense.
Art. 2o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Brasília, 21 de setembro de 2009; 188o da Independência e 121o da República.
JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA
João Luiz Silva Ferreira

sábado, 22 de janeiro de 2011

ARMÊNIO GUEDES, UM COMUNISTA AVULSO

Nascido na Bahia, em 1918, Armênio Guedes estudou na Faculdade de Direito, em Salvador. Ali, em 1935, entrou para o PCB, engrossando a “frente mundial contra o fascismo”.
Suas relações com Luís Carlos Prestes foram intensas, profundas, o que não significa a falta de críticas à atitude centralista de Prestes, às diretrizes do PC soviético e à sua ortodoxia marxista-stalinista.
Em entrevista a Natália Viana (Folha de São Paulo de 19/12/2010, páginas 6 e 7 da “ilustríssima”), Armênio Guedes conta algumas passagens de sua militância, da clandestinidade e de seu pensamento político. Perguntado “O que é ser comunista hoje?”, respondeu: “Uma pessoa de cultura socialista, também antifascista, internacionalista, contra a xenofobia, pela melhoria da situação do povo. Uma pessoa impregnada desses valores que só podem se desenvolver na democracia”.
Em 1983, abandonou o Partido Comunista e não se filiou a nenhum outro. Como ele mesmo diz, tornou-se “um comunista avulso”. Tido como “um comunista sem pressa”, declara que o século passado “foi um século fantástico... vi a coletivização da agricultura da União Soviética, a ascensão do fascismo, a Segunda Guerra Mundial, o franquismo na Espanha, aqui no Brasil o Estado Novo, a ditadura...”.
Vale a pena ler a matéria inteira da Folha e procurar mais sobre Armênio Guedes nos endereços eletrônicos. Em breve, sairão biografias desse homem de 92 anos, um dos poucos da época de Prestes. O outro é Oscar Niemeyer. Enquanto as biografias não saem, ficamos com o historiador Ivan Alves Filho, que afirmou: “Se existe um ser humano que deu certo, foi Armênio Guedes!”

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

REVOLUÇÃO INDUSTRIAL E LIBERALISMO ECONÔMICO

A Revolução Industrial trouxe um progresso material inegável ao homem, mas trouxe também uma série de consequências sociais negativas, conhecidas em seu conjunto por Questão Social, entre as quais estão o desemprego e todos os desdobramentos sociais a ele ligados: exploração do trabalho infantil e feminino, favelamento, violência urbana, e outros.
Adam Smith e seus seguidores, como David Ricardo, defenderam o liberalismo econômico, teoria adequada ao pensamento capitalista burguês, defendendo a propriedade privada dos meios de produção, a divisão local e internacional do trabalho, a Lei de Mercado (“mão invisível”), o lucro individual, a competição, o livre cambismo (baixas tarifas aduaneiras) e a transformação da força de trabalho em mercadoria, cujo preço depende do mercado. Assim, para o liberalismo econômico, como o valor de uma mercadoria depende da quantidade de trabalho nela embutida, o salário, ou seja, a remuneração pelo trabalho, deve ser baixo, “para não encarecer o preço final da mercadoria”. É a Lei Férrea do Salário.
Por razões como essas, o liberalismo defende a não intervenção do Estado na economia, possibilitando que os agentes econômicos privados - a saber, a burguesia - produzam o que quiserem, na quantidade que quiserem, pagando os salários que quiserem, limitados apenas pelo mercado.
Cabe lembrar que o modo de produção escravista (Grécia e Roma antigas) entrou em crise por escassez, a partir do século III. O modo de produção feudal idem, a partir do século XI. O modo de produção capitalista é o único capaz de entrar em crise motivada pela sobra, pela “superprodução”. É a fragilidade histórica e, portanto, estrutural, do capitalismo liberal: como não produz para as pessoas e sim para o mercado, quando o mercado comprador se retrai (por qualquer motivo) ocorre o fenômeno da superprodução.
Um paradoxo do liberalismo é o fato de que o Estado sempre é lembrado como salvador da crise, por isso, tem de ser a imagem e semelhança da razão burguesa: os lucros devem ser capitalizados e as perdas, materiais e humanas, socializadas. Vale lembrar, a título de exemplo, o papel do Estado nas crises capitalistas, em pleno “liberalismo econômico”, no neocolonialismo e imperialismo do século XIX, no bonapartismo de Napoleão I e Napoleão III, na Primeira Guerra Mundial. Não há nenhuma dúvida histórica, o Estado assumiu a ideologia burguesa e usou sua força, legitimada pela burguesia, para defender os interesses burgueses.
Quais seus limites de ação? O nacionalismo burguês, jogando burguesia versus burguesia e o nascimento e crescimento do proletariado internacionalista, seu principal produto social.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

DO IMPERIALISMO BRITÂNICO AO NORTE-AMERICANO

ORIGENS
A Guerra de Secessão consolidou o capitalismo nos Estados Unidos da América. O Norte burguês, industrial e protecionista se impôs ao Sul aristocrático, agrário, livre-cambista e escravista.
Na virada do século XIX para o XX, a Doutrina Monroe desembocou na Doutrina Roosevelt e no Big Stick de Theodore Roosevelt. O capitalismo norte-americano, consolidado internamente, debruçou seu olhar para a América Latina. O Destino Manifesto, fundamento ideológico da expansão territorial interna, ultrapassou as fronteiras físicas. Os territórios conquistados ao México, o caso panamenho contra a Colômbia em função do canal do Panamá, a Emenda Platt imposta a Cuba, a invasão dos mariners em Tampico, no México revolucionário são exemplos inegáveis do embrionário, mas já truculento, imperialismo norte-americano. Dispensando metáforas, em 1912, o Presidente Willian H. Taft disse: “Não está longe o dia em que três bandeiras de listras e estrelas marcarão em três lugares a extensão do nosso território: uma no pólo Norte, outra no Canal do Panamá e a terceira no pólo Sul. Todo hemisfério será nosso, de fato, como, em virtude de nossa superioridade racial, já é nosso moralmente”.

A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
Ao se dissipar a fumaça da Primeira Guerra Mundial, Washington substituía Londres como pólo do capitalismo. Os Estados Unidos passaram de devedores a credores da Europa. E sua burguesia traduziu a guerra como um grande e lucrativo negócio. Seus produtos entraram em áreas até então dominadas por mercadorias europeias, inclusive na própria Europa.
Segundo alguns analistas, a Primeira Guerra Mundial fez surgir o “quarto ciclo sistêmico de acumulação”, precedido pelo genovês (século XV e XVI), pelo holandês (séculos XVI e XVII) e pelo britânico (séculos XVIII e XIX). Nos dizeres de Giovanni Arrighi, o ciclo norte-americano dominou o “longo século XX” (Ler neste blog meu texto anterior: Imperialismo Britânico na Índia – 2).

O PERÍODO ENTRE-GUERRAS E A SEGUNDA GUERRA
No início do Período Entre-Guerras, muitos empréstimos e investimentos ingleses (e franceses) se perderam com a Revolução Bolchevique e com a Guerra Civil (1918/21) na Rússia. Enquanto isso, o capitalismo norte-americano dava enormes saltos de ganhos em produtividade, frutos do avanço tecnológico e metodológico implementados na produção. Mercadorias com a marca Made In USA ganhavam o mundo.
A Crise de 1929 e a Grande Depressão nos anos 30 do século XX nasceram nos Estados Unidos, mas atingiram todo o mundo capitalista. Não interromperam o processo da ascensão norte-americana no cenário mundial, apenas o retardaram. Estruturalmente, entrava em crise o liberalismo clássico, ortodoxo. O New Deal de Roosevelt, fundamentado em Keynes, começou a recuperação dos Estados Unidos e, durante a Segunda Guerra Mundial, o desemprego norte-americano, que tinha chegado a 25% da população ativa, tangenciou o zero. Assim, no Período Entre-Guerras e, principalmente, na Segunda Guerra, os Estados Unidos confirmaram sua posição de centro do quarto ciclo sistêmico de acumulação. Recorro novamente a Giovanni Arrighi sobre os efeitos internacionais da Segunda Guerra Mundial: “... esse confronto traduziu-se no estabelecimento de uma nova ordem mundial, centrada nos EUA e organizada por esse país. Em alguns aspectos fundamentais, ela diferia da extinta ordem mundial britânica e se transformou na base de uma nova fase de reprodução ampliada da economia mundial capitalista. No fim da Segunda Guerra Mundial, já estavam estabelecidos os principais contornos desse novo sistema mundial: em Bretton Woods foram estabelecidas as bases do novo sistema monetário mundial; em Hiroshima e Nagasaki, novos meios de violência haviam demonstrado quais seriam os alicerces militares da nova ordem; em Francisco, novas formas e regras para a legitimação da gestão do Estado e da guerra tinham sido explicadas na Carta das Nações Unidas”.

INÍCIO DO PÓS-GUERRA
Em 1947, ano do lançamento da Doutrina Truman e do Plano Marshall, os Estados Unidos detinham em seus cofres 70% do ouro do mundo. Para impedirem o avanço socialista, transportaram para o bloco capitalista, por eles liderado, a “segurança social” iniciada internamente com o New Deal. O Plano Marshall e o derrame de dólares nos países do bloco pretendiam estancar o caos social do pós-guerra, para anularem o crescimento da outra vitoriosa da Segunda Guerra, a União Soviética. Era o mundo bipolar da Guerra Fria, uma nova ordem em relação à velha ordem do imperialismo britânico passado.

IMPERIALISMO BRITÂNICO NA ÍNDIA -2-

Veneza e Gênova dominaram o comércio mediterrâneo na Baixa Idade Média, no chamado Renascimento Comercial. A Europa feudal, em colapso, via crescerem os pólos comerciais, as feiras, o renascimento das cidades, o retorno do uso da moeda, a busca do lucro individual e o surgimento de atividades financeiras, nas quais o dinheiro era a mercadoria para ganhar dinheiro. As famílias Médici, florentina, e Függer, alemã, são exemplos do enriquecimento proporcionado por atividades mercantis e bancárias.
A partir do século XV, com as grandes navegações oceânicas, o eixo econômico deslocou-se para o Atlântico-Índico. O Mediterrâneo minguava comercialmente, arrastando as cidades italianas tão poderosas até então. A tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453, e a chegada de Vasco da Gama a Calicute, em 1498, foram o golpe mortal na supremacia histórica do comércio mediterrâneo.
Portugal e Espanha dividiram o mundo e nasciam os grandes impérios coloniais. Os ibéricos, mergulhados na ideologia católica da Contrarreforma, perseguiram e expulsaram judeus. Com eles, o capital móvel de Portugal e Espanha migrou para lugares mais tolerantes, notadamente para a Holanda.
A Holanda estava em guerra contra os Habsburgos do Sacro Império e da Espanha. Mas aproximou-se de Portugal, com o qual formou a associação luso-flamenga, fundamental para a montagem da empresa açucareira do Brasil, financiando, transportando, refinando e, principalmente, distribuindo o açúcar brasileiro no mercado europeu. Assim, a Holanda ficou com a maior parcela dos lucros gerados pelo produto da colônia portuguesa. Tinha, então, a supremacia do comércio Ocidental.
A União Ibérica (1580/1640) e o embargo do açúcar brasileiro por Felipe II da Espanha não acabou com a supremacia holandesa. Ao invadir o Brasil, passou a produzir aqui, com financiamento de uma empresa de capital misto, a Companhia das Índias Ocidentais.
Mas, a Revolução Puritana na Inglaterra, através do Ato de Navegação (1651) de Oliver Cromwell, interrompeu a hegemonia batava e iniciou a supremacia britânica. Fazem parte desse processo os tratados assinados entre Portugal e Inglaterra pelo apoio desta na luta pela Restauração do trono português. Portugal perdera, então, parte de seu império ultramarino, como as Ilhas Molucas e o Ceilão para a Holanda, Tanger e Bombaim para a Inglaterra. Em 1703, Portugal assinou, com a Inglaterra, o Tratado de Methuen, também conhecido por “Tratado dos Panos e Vinhos”. Enquanto existiu, o ouro brasileiro sustentou os constantes déficits da balança comercial portuguesa ou, como diz um autor, “o ouro do Brasil entrava pela porta de Portugal e saía pela janela”. Ou, ainda, “o ouro provocou buracos na Brasil, altares em Portugal e máquinas na Inglaterra”. A Revolução Comercial, com a exploração das colônias, o tráfico negreiro, a pirataria e a ação corsária, forneceu capital para a Inglaterra liderar a Revolução Industrial.
A Inglaterra consolidou-se como centro dinâmico do capitalismo industrial, em detrimento de outros reinos europeus ancorados no monopólio comercial exercido sobre áreas periféricas. Mas a produção fabril, em larga escala, não admitia mais a manutenção de mercados enclausurados pelos dogmas mercantilistas. Na primeira metade do século XIX desmoronavam os impérios ibéricos e a América Latina deixou de ser periferia do capitalismo comercial e passou a ser periferia do capitalismo industrial britânico. O liberalismo econômico derrotara o mercantilismo, mas aperfeiçoava a divisão internacional do trabalho, iniciada pelo regime do pacto colonial das antigas metrópoles.
A partir da metade do século XIX, com os efeitos da chamada Segunda Revolução Industrial, o neocolonialismo e o imperialismo escrevem uma nova história na África e na Ásia. E a Inglaterra confirma sua hegemonia no capitalismo monopolista, discursando sobre as “vantagens” do liberalismo. A Guerra dos Sipaios na Índia, as Guerras do Ópio na China e a Guerra dos Bôeres na África do Sul são inquestionáveis demonstrações da força dos canhões britânicos, em nome do “liberalismo econômico”. Vejamos o que diz um estudioso do imperialismo britânico: “O domínio britânico sobre o equilíbrio de poder europeu foi suplementado e complementado pela consolidação do império territorial da Grã-Bretanha na Índia, depois do chamado Grande Motim de 1857 [Guerra dos Sipaios, palavra de origem híndi (shipahi) que significa soldado].
O controle sobre a Índia significava comandar recursos financeiros e materiais – inclusive recursos humanos militares – que nenhuma nação ou conjunto provável de nações poderia igualar e nenhum grupo dominante, de momento, poderia desafiar em termos militares.
[...] Ao mesmo tempo, o regime britânico unilateral de livre comércio
[liberalismo econômico] ligou o mundo inteiro à Grã-Bretanha. Esta se tornou o “mercado” mais conveniente e eficiente para obter meios de pagamentos e de produção e para colocar produtos primários. [...]Além disso, como em todos os ciclos sistêmicos de acumulação anteriores, a intensificação das pressões competitivas acarretada pela fase de expansão material associou-se, desde o início, a uma grande guinada do comércio e da produção para as finanças, por parte da classe capitalista britânica. A segunda metade do século XIX caracterizou-se não apenas por grandes levas de exportação de capital da Grã-Bretanha, como já foi assinalado, mas também pela expansão das redes bancárias provinciais britânicas, aliada à crescente integração delas nas redes de City, o centro financeiro londrino”.
(ARRIGHI, Giovanni. O Longo Século XX: Dinheiro, Poder e as Origens do Nosso Tempo. São Paulo. Contraponto/UNESP, 1996)

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

IMPERIALISMO BRITÂNICO NA ÍNDIA

OS PRIMEIROS CICLOS SISTÊMICOS DE ACUMULAÇÃO DE CAPITAL

Veneza e Gênova dominaram o comércio mediterrâneo na Baixa Idade Média, no chamado Renascimento Comercial. A Europa feudal, em colapso, via crescerem os pólos comerciais, as feiras, o renascimento das cidades, o retorno do uso da moeda, a busca do lucro individual e o surgimento de atividades financeiras, nas quais o dinheiro era a mercadoria para ganhar dinheiro. As famílias Médici, florentina, e Függer, alemã, são exemplos do enriquecimento proporcionado por atividades mercantis e bancárias.
A partir do século XV, com as grandes navegações oceânicas, o eixo econômico deslocou-se para o Atlântico-Índico. O Mediterrâneo minguava comercialmente, arrastando as cidades italianas tão poderosas até então. A tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453, e a chegada de Vasco da Gama a Calicute, em 1498, foram o golpe mortal na supremacia histórica do comércio mediterrâneo.
Portugal e Espanha dividiram o mundo e nasciam os grandes impérios coloniais. Os ibéricos, mergulhados na ideologia católica da Contrarreforma, perseguiram e expulsaram judeus. Com eles, o capital móvel de Portugal e Espanha migrou para lugares mais tolerantes, notadamente para a Holanda.
A Holanda estava em guerra contra os Habsburgos do Sacro Império e da Espanha. Mas aproximou-se de Portugal, com o qual formou a associação luso-flamenga, fundamental para a montagem da empresa açucareira do Brasil, financiando, transportando, refinando e, principalmente, distribuindo o açúcar brasileiro no mercado europeu. Assim, a Holanda ficou com a maior parcela dos lucros gerados pelo produto da colônia portuguesa. Tinha, então, a supremacia do comércio Ocidental.
A União Ibérica (1580/1640) e o embargo do açúcar brasileiro por Felipe II da Espanha não acabou com a supremacia holandesa. Ao invadir o Brasil, passou a produzir aqui, com financiamento de uma empresa de capital misto, a Companhia das Índias Ocidentais.
Mas, a Revolução Puritana na Inglaterra, através do Ato de Navegação (1651) de Oliver Cromwell, interrompeu a hegemonia batava e iniciou a supremacia britânica. Fazem parte desse processo os tratados assinados entre Portugal e Inglaterra pelo apoio desta na luta pela Restauração do trono português. Portugal perdera, então, parte de seu império ultramarino, como as Ilhas Molucas e o Ceilão para a Holanda, Tanger e Bombaim para a Inglaterra.
Em 1703, Portugal assinou, com a Inglaterra, o Tratado de Methuen, também conhecido por “Tratado dos Panos e Vinhos”. Enquanto existiu, o ouro brasileiro sustentou os constantes déficits da balança comercial portuguesa ou, como diz um autor, “o ouro do Brasil entrava pela porta de Portugal e saía pela janela”. Ou, ainda, “o ouro provocou buracos na Brasil, altares em Portugal e máquinas na Inglaterra”.
A Revolução Comercial, com a exploração das colônias, o tráfico negreiro, a escravidão, a pirataria e a ação corsária, forneceu capital para a Inglaterra liderar a Revolução Industrial. A Inglaterra consolidou-se como centro dinâmico do capitalismo industrial, em detrimento de outros reinos europeus ancorados no monopólio comercial exercido sobre áreas periféricas.
Mas a produção fabril, em larga escala, não admitia mais a manutenção de mercados enclausurados pelos dogmas mercantilistas.
Na primeira metade do século XIX desmoronavam os impérios ibéricos e a América Latina deixou de ser periferia do capitalismo comercial e passou a ser periferia do capitalismo industrial britânico. O liberalismo econômico derrotara o mercantilismo, mas aperfeiçoava a divisão internacional do trabalho, iniciada pelo regime do pacto colonial das antigas metrópoles.

O NEOCOLONIALISMO E O IMPERIALISMO

A partir da metade do século XIX, com os efeitos da chamada Segunda Revolução Industrial, o neocolonialismo e o imperialismo escrevem uma nova história na África e na Ásia. E a Inglaterra confirma sua hegemonia no capitalismo monopolista, discursando sobre as “vantagens” do liberalismo. A Guerra dos Sipaios na Índia, as Guerras do Ópio na China e a Guerra dos Bôeres na África do Sul são inquestionáveis demonstrações da força dos canhões britânicos, em nome do liberalismo econômico.
A Índia, a partir do século XIX, tornou-se um dos mais marcantes exemplos do poder devastador do Império Britânico. Antes, em sua história milenar, existiam aproximadamente setenta mil aldeias de economia autossuficiente. Sua riqueza cultural marcada por dezenas de línguas, centenas de dialetos, múltiplas etnias e religiões.
A beleza e a qualidade de suas mercadorias, especialmente os tecidos, eram apreciadas em todo o mundo. Por exemplo, encantaram Alexandre Magno e os macedônicos que lá chegaram com seu império. E os romanos com seu império. E os muçulmanos, com seu Islão. E os portugueses, com seu império marítimo-comercial.
Porém, foi a “missão civilizadora” do Império Britânico que mudou para sempre a História da Índia. Vejamos o que diz um estudioso do assunto.
“Explorando a Índia, a Grã-Bretanha, hábil em preparar os lucros, sabia ao mesmo tempo evitar as perdas. Desde o dia em que começou a ter na Índia um vasto mercado para suas manufaturas, a Inglaterra esforçou-se por arruinar as indústrias regionais. A Índia havia sido, até meados do século XIX, um país exportador de artigos fabricados. Nas cidades e nas grandes vilas exerciam-se, antigamente, profissões cujos produtos eram conhecidos em todo o mundo. Durante mais de um século e meio foi, sobretudo pelo tráfico dos tecidos finos e dos bordados da Índia e por sua venda nos mercados da Europa, que se enriqueceu a Companhia – antes do desenvolvimento da economia industrial na Grã-Bretanha. Porém, o desenvolvimento da indústria dos tecidos de algodão de Manchester tornava-os rivais dos da Índia. Para lhes assegurar um mercado (...), golpearam a indústria da Índia. De 1814 a 1835, o número de peças de fazendas importadas da Índia pela Grã-Bretanha caiu de 1.266.000 para 306.000. Em contraposição, o baixo preço das fazendas bitânicas fez com que elas fossem aceitas no mercado da Índia, onde pouco a pouco substituíram os tecidos locais: de 1814 a 1835, sua importação de 818.000 jardas subiu para 51.777.000. As indústrias indianas estagnaram; a vida industrial declina cada vez mais em lugares outrora florescentes. A Índia tornou-se um país quase que exclusivamente agrícola, produzindo matérias-primas e recebendo os artigos manufaturados do estrangeiro".
(GEORGE, Pierre. Geografia Econômica. Rio de Janeiro, Fundo de Cultura, 1970)

Vejamos o que diz outro estudioso: “O domínio britânico sobre o equilíbrio de poder europeu foi suplementado e complementado pela consolidação do império territorial da Grã-Bretanha na Índia, depois do chamado Grande Motim de 1857 [Guerra dos Sipaios, palavra de origem híndi (shipahi) que significa soldado]. O controle sobre a Índia significava comandar recursos financeiros e materiais – inclusive recursos humanos militares – que nenhuma nação ou conjunto provável de nações poderia igualar e nenhum grupo dominante, de momento, poderia desafiar em termos militares.[...] Ao mesmo tempo, o regime britânico unilateral de livre comércio [liberalismo econômico] ligou o mundo inteiro à Grã-Bretanha. Esta se tornou o “mercado” mais conveniente e eficiente para obter meios de pagamentos e de produção e para colocar produtos primários. [...]Além disso, como em todos os ciclos sistêmicos de acumulação anteriores, a intensificação das pressões competitivas acarretada pela fase de expansão material associou-se, desde o início, a uma grande guinada do comércio e da produção para as finanças, por parte da classe capitalista britânica. A segunda metade do século XIX caracterizou-se não apenas por grandes levas de exportação de capital da Grã-Bretanha, como já foi assinalado, mas também pela expansão das redes bancárias provinciais britânicas, aliada à crescente integração delas nas redes de City, o centro financeiro londrino” (ARRIGHI, Giovanni. O Longo Século XX: Dinheiro, Poder e as Origens do Nosso Tempo. São Paulo. Contraponto/UNESP, 1996).


DO IMPERIALISMO BRITÂNICO AO NORTE-AMERICANO

A Guerra de Secessão consolidou o capitalismo nos Estados Unidos da América. O Norte burguês, industrial e protecionista se impôs ao Sul aristocrático, agrário, livre-cambista e escravista. Na virada do século XIX para o XX, a Doutrina Monroe desembocou na Doutrina Roosevelt e no Big Stick de Theodore Roosevelt. O capitalismo norte-americano, consolidado internamente, debruçou seu olhar para a América Latina. O Destino Manifesto, fundamento ideológico da expansão territorial interna, ultrapassou as fronteiras físicas. Os territórios conquistados ao México, o caso panamenho contra a Colômbia em função do canal do Panamá, a Emenda Platt imposta a Cuba, a invasão dos mariners em Tampico, no México revolucionário são exemplos inegáveis do embrionário, mas já truculento, imperialismo norte-americano. Dispensando metáforas, em 1912, o Presidente Willian H. Taft disse: “Não está longe o dia em que três bandeiras de listras e estrelas marcarão em três lugares a extensão do nosso território: uma no pólo Norte, outra no Canal do Panamá e a terceira no pólo Sul. Todo hemisfério será nosso, de fato, como, em virtude de nossa superioridade racial, já é nosso moralmente”.
Ao se dissipar a fumaça da Primeira Guerra Mundial, Washington substituía Londres como pólo do capitalismo. Os Estados Unidos passaram de devedores a credores da Europa. E sua burguesia traduziu a guerra como um grande e lucrativo negócio. Seus produtos entraram em áreas até então dominadas por mercadorias europeias, inclusive na própria Europa.
Segundo alguns analistas, a Primeira Guerra Mundial fez surgir o “quarto ciclo sistêmico de acumulação”, precedido pelo genovês (século XV e XVI), pelo holandês (séculos XVI e XVII) e pelo britânico (séculos XVIII e XIX). Nos dizeres de Giovanni Arrighi, o ciclo norte-americano dominou o “longo século XX”.
No início do Período Entre-Guerras, muitos empréstimos e investimentos ingleses (e franceses) se perderam com a Revolução Bolchevique e com a Guerra Civil (1918/21) na Rússia. Enquanto isso, o capitalismo norte-americano dava enormes saltos de ganhos em produtividade, frutos do avanço tecnológico e metodológico implementados na produção. Mercadorias com a marca Made In USA ganhavam o mundo. A Crise de 1929 e a Grande Depressão nos anos 30 do século XX nasceram nos Estados Unidos, mas atingiram todo o mundo capitalista. Não interromperam o processo da ascensão norte-americana no cenário mundial, apenas o retardaram. Estruturalmente, entrava em crise o liberalismo clássico, ortodoxo. O New Deal de Roosevelt, fundamentado em Keynes, começou a recuperação dos Estados Unidos e, durante a Segunda Guerra Mundial, o desemprego norte-americano, que tinha chegado a 25% da população ativa, tangenciou o zero.
Assim, no Período Entre-Guerras e, principalmente, na Segunda Guerra, os Estados Unidos confirmaram sua posição de centro do quarto ciclo sistêmico de acumulação.
Recorro novamente a Giovanni Arrighi sobre os efeitos internacionais da Segunda Guerra Mundial: “... esse confronto traduziu-se no estabelecimento de uma nova ordem mundial, centrada nos EUA e organizada por esse país. Em alguns aspectos fundamentais, ela diferia da extinta ordem mundial britânica e se transformou na base de uma nova fase de reprodução ampliada da economia mundial capitalista. No fim da Segunda Guerra Mundial, já estavam estabelecidos os principais contornos desse novo sistema mundial: em Bretton Woods foram estabelecidas as bases do novo sistema monetário mundial; em Hiroshima e Nagasaki, novos meios de violência haviam demonstrado quais seriam os alicerces militares da nova ordem; em São Francisco, novas formas e regras para a legitimação da gestão do Estado e da guerra tinham sido explicadas na Carta das Nações Unidas”. Em 1947, ano do lançamento da Doutrina Truman e do Plano Marshall, os Estados Unidos detinham em seus cofres 70% do ouro do mundo. Para impedirem o avanço socialista, transportaram para o bloco capitalista, por eles liderado, a “segurança social” iniciada internamente com o New Deal. O Plano Marshall e o derrame de dólares nos países do bloco pretendiam estancar o caos social do pós-guerra, para anularem o crescimento da outra vitoriosa da Segunda Guerra, a União Soviética. Era o mundo bipolar da Guerra Fria, uma nova ordem em relação à velha ordem do imperialismo britânico passado.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

H.Q.

H.Q.

Chico Bento nos contou
(O Bode Orelhana lhe falou)
Que Tio Patinhas
Os Irmãos Metralha gerou.

Ele contou os Patinhas do mundo
E os dedos da mão usava
E, a cada tempo,
De menos dedos precisava.

Contou os Metralhas do mundo.
Os seus dedos das mãos e dos pés usou,
os da centopéia que passava,
E aos dedos da Rosinha somou.
A cada tempo,
De mais dedos precisava.

A Mafalda lhe contou
Que os Patinhas nadam em dinheiro
E mais dinheiros querem
Pra nadarem mais em dinheiros
E aos Metralhas não.
E o Chico Buarque lhe cantou:
“Chame o ladrão,
Chame o ladrão,
Chame o ladrão!”

A Graúna do Henfil lhe contou
Ser Mickey agente da CIA,
E, na família Donald,
Não há filhinhos
Só tio e tia.
Só há sobrinhos.
.Vieram todos da chocadeira elétrica?
É que, para aquelas bandas,
Nas terras de Mickeys e Patinhas próprias,
Não há amor,
Só “relações impróprias”.

Cruiz, credo!
Inda bem qui ocê tem pai e mãe, Chico.
I a galinha Giserda.
Inda bem qui ocê tem Chico, Chico.
I as goiaba do Nhô Lau.
Inda bem qui ocê tem Henfil, Chico.
I a Mafalda, Chico.

Ainda bem que temos você, Chico!
Nóis carece di mais u que, Chico?