domingo, 10 de abril de 2011

A ITÁLIA E OS BOMBARDEIOS NA LÍBIA

Mark Almond: 100 anos de bombas contra a Líbia Um excente texto de Mark Almond foi publicado em http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/mark-almond-100-anos-de-bombas-contra-a-libia.html. Vai aqui um exemplo de como as grandes distribuidoras de notícias e as grandes empresas jornalísticas manipulam o que deve e e que não deve ser publicado. As tentativas de entender um fato em sua totalidade torna-se infrutífera. No caso da Líbia, as notícias partem de poucas agências e se multiplicam na grande mídia como interessa aos editores. No entanto, mesmo que a notícia seja verdadeira, é uma verdade vesga, míope, pois não se tem acesso ao outro lado da mesma verdade. Aproveitando o assunto das inverdades da grande mídia, indico a leitura da revista Carta Capital de 13 de abril de 2011. A matéria de capa trata das mentiras divulgadas pelos grandes órgãos da imprensa a respeito da divulgação do relatório da Polícia Federal sobre o "caso mensalão". No cantinho deste nosso blog, parte da reportagem pode ser lida, ao clicar em cima de "Carta Capital".

17 DE MARÇO DE 2011:SESQUICENTENÁRIO DA ITÁLIA

Em 17 de março de 2011, a Itália completou 150 anos de existência unificada. Naquele dia de 1861, Vitor Emanuel II, inicialmente Rei do Piemonte, era aclamado Rei da Itália.

  • A ITÁLIA DESENHADA PELO CONGRESSO DE VIENA

O Congresso de Viena, em 1815, dividiu a Península Itálica em vários Estados. Milão e Veneza ficaram sob domínio austríaco, assim como os ducados de Módena e Toscana. No centro da península ficavam os Estados Pontifícios, dominados pela Igreja Católica.Ao Sul, o Reino das Duas Sicílias, com capital em Nápoles, era governado pelos Bourbons da Espanha, assim como o ducado de Parma. No Norte, o Reino do Piemonte, ou Sardo-Piemontês era o único nas mãos de italianos, governado pela dinastia de Savoia.







  • AS REVOLUÇÕES DE 1830 E 1848

Levantes liberais e nacionalistas marcaram os anos de 1830 e de 1848, este conhecido por “A Primavera dos Povos”. A luta pela unificação era liderada por Mazzini e pelo rei Carlos Alberto, do Piemonte. O movimento “Jovem Itália”, de Mazzini e Garibaldi, pretendia transformar o futuro país em uma República. Os republicanos chegaram a tomar Roma, forçando o exílio do papa. Mas a alta burguesia piemontesa temia a “radicalização” republicana, a “desordem popular” e os possíveis ataques à propriedade privada. Apoiou, então o rei do Piemonte. A cisão entre as forças unificadoras custou-lhes caro. As forças da reação, da contrarrevolução, esmagaram os insurretos em 1849. Carlos Alberto foi forçado a abdicar do trono em nome de seu filho Vitor Emanuel. O papa, apoiado por Napoleão III da França, voltou do exílio e retomou os Estados Pontifícios.


  • O RISORGIMENTO

Pio IX
No Reino Sardo-Piemontês, único independente de forças estrangeiras, liberal, industrializado e burguês, os ideais nacionalistas de unificação continuaram latentes. Ao nacionalismo burguês somou-se a mecessidade de formar um mercado mais amplo para seus negócios capitalistas. Assim nasceu o Risorgimento, movimento ideológico que defendia o ressurgir da poderosa Itália dos tempos da Antiguidade (Império Romano) e da Renascença. Nesse contexto, as primeiras ações foram marcadas pelo terrorismo e nucleadas em sociedades secretas, como a dos Carbonários. Depois foram dirigidas por líderes como Cavour e Garibaldi. Um dos mais destacados artífices desse movimento foi Camilo Benso de Cavour, grande proprietário de terra e monarquista convicto. Em 1852, foi convocado por Vitor Emanuel II para chefiar o gabinete ministerial, ou seja, para o governo do Piemonte-Sardenha.

Garibaldi (em pé) e Mazzini

  • A AÇÃO DO CONDE CAVOUR

Conde Cavour
Cavour tinha a certeza que não poderia promover a unificação da Itália sem o apoio de forças estrangeiras. Por isso, aliou-se à França de Napoleão III e à Inglaterra da Rainha Vitória na Guerra da Criméia, contra a Rússia. Em troca, Napoleão III apoiou o Piemonte na luta contra a Áustria, dominadora de extensas regiões na Itália. Embora não tenha sido uma vitória completa, pois a Áustria ainda manteve territórios por ela dominados, Cavour anexou os ducados de Toscana, Parma e Módena e parte dos territórios papais. O Piemonte dobrou de tamanho, dominou o industrializado Vale do Pó e tornou-se inquestionavelmente o reino mais importante da Itália. Em reciprocidade ao apoio francês, o Piemonte entregou a Napoleão III os condados de Nice e Savoia. Para silenciar a oposição católica contra o domínio piemontês de regiões da Igreja, Cavour fez realizar plebiscitos em muitas áreas e a resposta foi esmagadoramente a favor da unificação liderada pelo Piemonte.


  • O REINO DAS DUAS SICÍLIAS

Garibaldi
No Sul da Itália, a luta foi conduzida por Garibaldi, o mesmo que lutou no Brasil ao lado dos farroupilhas, pela República Rio-Grandense. Com suas “Camisas Vermelhas”os “Mil de Garibaldi”derrotaram a dinastia bourbônica. Mas, desta vez, os republicanos não cometeram os erros de 1830 e 1848. As forças de Garibaldi concordaram em anexar o Reino das Duas Sicílias aos monarquistas de Vitor Emanuel II. Garibaldi retirou-se da vida pública. Estava consumado o sonho de Cavour que, em fução de sua morte, em 1860, não o viu completado.


  • 17 DE MARÇO DE 1861 Vitor Emanuel II, originariamente rei do Piemonte, foi aclamado rei da Itália.

  • 1861 – 1871: A UNIFICAÇÃO SE COMPLETA

A aclamação do rei da Itália ocorreu antes da completa unificação do país. Faltavam ainda regiões importantes, como Roma, ainda sob domínio papal, e Veneza, controlada pelos Habsburgos da Áustria. No caso de Roma, o papa Pio IX recebia apoio militar de Napoleão III da França, desta vez contra Vitor Emanuel II. Mas a conjuntura européia tornou-se favorável à Itália com as guerras de unificação da Alemanha, conduzidas pela Prússia de Bismarck. A Guerra Austro-Prussiana, ou Guerra das Sete Semanas, enfraqueceu a Áustria, derrotada, e permitiu a vitória italiana na anexação de Veneza. A Guerra Franco-Prussiana forçou Napoleão III a retirar suas forças de Roma, deixando o papa à mercê dos unificadores italianos. Em 1870, enquanto a França perdia a guerra para a Prússia, os exércitos italianos tomaram Roma, que passou a ser a capital do Estado Italiano.


  • ALGUMAS CONSEQUÊNCIAS DA UNIFICAÇÃO

Assinatura do Tratado de Latrão,em 1929
Com a derrota das forças papais, Pio IX passou a tomar uma série de medidas contra o Estado Italiano, como estimular os católicos a não participarem de eleições e não se empregarem em órgãos do Estado. Nascia a Questão Romana, conflito entre a Igreja e o Estado, no qual a Igreja perdeu suas terras e muitos privilégios. Somente em 1929, pelo Tratado de Latrão assinado por Pio XI e o fascista Mussoline, a questão foi solucionada. O Estado Fascista criou o Estado Independente do Vaticano, um enclave dentro de Roma. A religião católica passou a ser oficial e obrigatória na Itália de Mussoline. Outra consequência foi a acelerada industrialização da Itália e sua participação tardia na corrida neocolonialista e imperialista, causa fundamental da Primeira Guerra Mundial.


  • ALGUNS TEXTOS SOBRE A UNIFICAÇÃO

Mazzini defende o direito italiano à unificação política: “Somos um povo de 21 a 22 milhões de homens, designado há muito tempo pelo nome italiano, encerrado entre os limites naturais mais preciosos que Deus já traçou – o mar e as montanhas mais altas da Europa; e um povo que fala a mesma língua (...) que se orgulha do mais glorioso passado político, científico e artístico da história européia (...) Não temos mais bandeira, nem nome político, nem posição entre as nações européias (...) Estamos desmembrados em oito Estados (...) independentes, sem aliança, sem unidade, sem ligação organizada. Não existe liberdade de Imprensa, nem de associação, nem de expressão, nem de petição coletiva, nem de importação de livros estrangeiros, nem de educação, nem de nada. Um desses Estados, cujo território compreende uma quarta parte da península, pertence à Áustria; os outros submetem-se cegamente à sua influência.” (MAZZINI, A Itália, a Áustria e o Papa. 1845. Citado por J. Monnier)


    Garibaldi e seus comandados em direção à Sicília: “...ao primeiro gesto de Garibaldi todos os soldados do exército desertariam para segui-lo (...). Os voluntários, reconhecidos por suas camisas vermelhas, marchavam estrepitosamente pelas ruas de Gênova ao rufar dos tambores (...) Viva a Itália toda em uma (...)! Cada província tinha a honra de enviar seus soldados para juntar-se à expedição libertadora; as velhas disputas provinciais, os amores-próprios provinciais, que outrora fizeram tanto mal à nação italiana, esfumavam-se num único pensamento.” (TAINE, Voyage em Italie. Citado por L. Girard, 1945)

    A Itália e os italianos: “No momento da unificação, em 1860, estimou-se que não mais de 2,5% de seus habitantes falava a língua italiana no dia-a-dia, o resto falava idiomas de tal forma diferentes, que professores enviados pelo Estado italiano para a Sicília (...) foram confundidos com ingleses. Provavelmente uma porcentagem bem maior, mas ainda uma modesta minoria, teria se sentido naquela data como italianos. Não é de se admirar que Massimo d’Azeglio (1792-1886) tivesse exclamado em 1860: “Fizemos a Itátia; agora precisamos fazer os italianos”. (HOBSBAWM, Eric. A Era do Capital -1848-1875)

    Cavour expõe, pouco antes de sua morte, o problema da anexação de Roma: “Roma, só Roma deve ser a capital da Itália. Mas aqui começam as dificuldades do problema (...) Devemos ir a Roma, mas sob duas condições: a ela devemos ir em concordância com a França e sem que a união desta cidade ao resto da Itália possa ser interpretada pelo grande número de católicos da Itália e do estrangeiro como indício de submissão da Igreja”. (Citado por DUROSELLE e GERBET, na Collection Monnier, Fernand Nathan)

    O problema da Igreja versus Estado: “Em várias ocasiões anteriores à anexação de Roma, Pio IX (1846 – 1878) se manifertara contra a unificação italiana, ao perceber que isso implicaria perdas territoriais e diminuição da influência política da Igreja. Em 1864, através da bula Syllabus errorum, o papa condenou todas as teorias que defendiam mudanças sociais – o liberalismo, o sindicalismo, a democracia – e propôs que todos os poderes temporais se submetessem às diretrizes eclesiásticas. Em 1866, promulgou o Non expedit, um documento que proibia os católicos de participarem da vida política e das eleições no novo reino. Como consequência dessas medidas, o Estado separou-se da Igreja e deixou de pagar os salários dos padres; os terrotórios pontifícios restringiam-se ao Vaticano. O taxativo repúdio do Syllabus ao racionalismo liberal provocou deserções, sobretudo de católicos das classes dirigentes e intelectuais, além de provocar rupturas dentro da própria Igreja entre o clero tradicional e o clero liberal.” (PAZZINATO, Alceu e SENISE, Maria HelenaV. História Moderna e Contemporânea. Ática)

    Verdi e a unificação da Itália: “Várias manifestações unificadoras na região dominada pelos austríacos, buscando escapar da violenta repressão dos governantes locais, eram feitas com faixas escritas “Viva VERDI”, levando as autoridades a pensar em manifestação de regozijo italiano em homenagem ao músico Giuseppe Verdi, o autor da ópera Aída. Era justamente o que queriam os manifestantes que pensassem os austríacos. Porém, expressavam, entre os seus, outro significado bem nacionalista, contra a dominação da Áustria, com as letras das palavras “Viva VERDI”: “Viva Victor Emanuel, Rei di Itália!” (VICENTINO, Cláudio. História Geral)



    quarta-feira, 6 de abril de 2011

    UMA CONTRADIÇÃO DO ESTADO MODERNO PORTUGUÊS

    No processo de formação das Monarquias Nacionais europeias, a aliança entre o rei e a burguesia foi fundamental para a centralização do poder político nas mãos do rei na luta contra o localismo político dos senhores feudais. Apoiado financeiramente pela burguesia, o rei formou um exército profissional para derrotar as forças da nobreza, constituídas, em sua maioria, por seus próprios servos que, na hora da luta, largavam a enxada e empunhavam a espada. Ao derrotar a nobreza, o rei não tomava seu feudo, nem seu título de nobreza. Tomava o poder político, impondo a padronização real das leis, dos pesos e medidas, dos tribunais, das leis, das moedas. Porém, mantinha os privilégios de nascimento e atraía a nobreza à sua corte real. Em outras palavras, a vitória político-militar do rei não implicou a destruição da nobreza, mas esta, outrora forte politicamente, tornou-se cortesã, vivendo às custas das benesses do Estado. Como diz Max Weber, “Após ter conseguido retirar da nobreza o poder político que ela detinha enquanto ordem, os soberanos a atraíram para a corte e lhe atribuíram funções políticas e diplomáticas.” (Max Weber, Política como Vocação) A monarquia centralizada, absolutista, equilibrava-se sobre as camadas sociais dialeticamente opostas: à burguesia emergente concedia privilégios econômicos, à nobreza decadente, privilégios de nascimento, jurídicos, diplomáticos e militares. O Estado Moderno, absolutista, deve ser entendido estruturalmente como transitório, entre o Estado feudal, dominado pela nobreza, e o Estado capitalista, dominado pela burguesia. No caso de Portugal, há muitas particularidades. Em primeiro lugar, o feudalismo, se é que houve, foi atípico, pois o monarca Borgonha e, depois, de Avis, era o único suserano, de todos os vassalos, diferente do feudalismo francês e inglês. Em segundo lugar, em função dos ideais da Contrarreforma, a intolerância religiosa atinge não só os protestantes cristãos, mas fundamentalmente os judeus, núcleo do grupo mercantil possuidor da maior parte do capital móvel de Portugal. Com D. Manuel I, consagra-se a expulsão dos judeus, e, com eles, a fuga da riqueza monetária. Aos judeus que não fugiram, restavam duas alternativas não excludentes entre si: ou tornam-se cripto judeus, com cultos hebraicos clandestinos, ou tornam-se cristãos novos, batizados católicos. Aí reside a contradição: no auge da expansão marítima e comercial, Portugal se descapitalizou e começou sua decadência. Daí a importância da associação com a nascente Holanda que, embora protestante, recebeu judeus e, com eles, seu capital móvel. Restava aos reis de Portugal dar privilégios à sua nobreza, titulada ou não. Na colonização do Brasil, como desdobramento da expansão marítima lusa, a maior parte das Capitanias Hereditárias foi entregue à pequena nobreza de Portugal.

    terça-feira, 5 de abril de 2011

    A MINERAÇÃO NO BRASIL COLONIAL










    • O CICLO DO OURO
    A mineração no Brasil colonial se estendeu basicamente de meados do século XVII a meados do século XVIII, sendo Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso os principais centros de extração. Inicialmente, o ouro foi encontrado na forma de aluvião, nos fundos e nas barrancas de rios. No final do século XVII e início do XVIII, foram encontrados os primeiros veios auríferos: Antônio Rodrigues Arzão descobriu as jazidas de Caetés, em 1693, Pascoal Moreira Cabral em Cuiabá, em 1718 e Bartolomeu Bueno da Silva Filho em Goiânia, em 1725. Dois tipos de exploradores se destacam. O pequeno, com pouco investimento inicial e trabalho nômade, usando equipamentos de baixo custo, como a bateia ou a peneira para a catação ou faiscação de pequenas peças. As lavras eram empresas maiores, usando o trabalho escravo em maior escala. Diferente das jazidas da América Espanhola, que exigiam elevados investimentos e técnicas, o ouro brasileiro era, como vimos, de aluvião, resultado de longo processo de erosão natural de primitivas rochas auríferas. Assim, na prática, qualquer pessoa podia se dedicar à atividade, com baixo investimento e grande possibilidade de sucesso.








    • O OURO, A FOME E O MERCADO INTERNO
    Tanto na faiscação como nas lavras, o trabalho era altamente especializado e exigia dedicação exclusiva. Nos engenhos de açúcar, embora o trabalho também seja especializado, havia a produção de alimentos e de outros produtos na mesma fazenda, um latifúndio. O minerador não era, ao mesmo tempo, produtor de alimentos e de quaisquer outros produtos além do ouro. Por isso, a região mineradora tornou-se mercado consumidor de várias mercadorias, dinamizando a economia e integrando várias regiões do país. Pela primeira vez na História do Brasil, constituiu-se um mercado interno, resolvendo ou amenizando graves crises de abastecimento ocorridas entre 1697 e 1701 nas áreas mineradoras. Segundo um estudioso, “em 1698, o governador do Rio de Janeiro informava à Coroa que a carência de mantimentos era tão crítica que muitos mineiros tinham sido obrigados a abandonar suas jazidas de ouro e estavam errando pelas matas com seus escravos em busca de caça, peixes, frutas, a fim de se alimentarem.” (BOXER, C. R. A Idade do Ouro no Brasil). Em poucos anos, a mineração transformou o Centro-Oeste na Meca das atividades coloniais. Para lá fluíram escravos, mantimentos, carne, artesãos, técnicos, aventureiros. Os antigos centros litorâneos (Rio de Janeiro, Olinda, Salvador e outros) passaram a sofrer a escassez de mercadorias, de alimentos e até de trabalhadores, livres ou escravos.





    • O OURO E A EXPLOSÃO DEMOGRÁFICA
    Uma das maiores consequências da mineração foi o ecelerado crescimento demográfico da população no Brasil, com a chegada de muitos portugueses e muitos escravos. No século XVI, a população mal chegava aos 100.000 habitantes, chegando a 300.000 no século XVII, dos quais 200.000 eram escravos. No século XVIII, com a mineração, atingiu 3.300.000, sendo 1.200.000 escravos. Índios não integrados ao sistema não são contabilizados. Importante acrescentar o porcentual de escravos em relação à população livre: no século XVII, constituíam 63% do total e, no XVIII, apenas 36%. O que ocorreu foi a chegada de um enorme contingente de portugueses. Segundo o historiador Boxer, já citado anteriormente, três a quatro mil saíram anualmente da metrópole em direção ao Brasil, especialmente para a região das minas. Para Portugal, o fenômeno foi tão preocupante que, em 1720, o rei passou a controlar a saída de portugueses. Um observador da época, contemporâneo desses fatos, o jesuíta Antonil, publicou em 1711 um livro fundamental para se entender o período, Cultura e Opulência do Brasil, onde escreveu: “A sede insaciável do ouro estimulou a tantos deixarem suas terras e meterem-se por caminhos tão ásperos como o das minas, que dificultosamente se poderá dar conta do número de pessoas que atualmente lá estão (...). Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil, vão brancos, pardos, pretos e muitos índios, de que os paulistas se servem. A mistura é de toda condição de pessoas: homens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, seculares e clérigos, e religiosos de diversos institutos, muitos dos quais não têm no Brasil convento ou casa.”








    • OS CAMINHOS DO OURO
    A longa distância entre o litoral e a região das minas era, penosamente, percorrida por dois caminhos principais, o Caminho Geral do Sertão e o Caminho do Rio São Francisco. O primeiro saía de São Paulo, passava pelo vale do rio Paraíba e chegava ao rio Grande, onde se bifurcava para o rio das Velhas e para o rio Doce. Em 1700 (aproximadamente), surgiu o Caminho Velho, ligando o Caminho Geral do Sertão ao porto de Parati, de onde se chegava ao Rio de Janeiro, por mar. Depois foi aberto o Caminho Novo, ligando por terra o Rio de Janeiro a Pindamonhangaba, de onde se rumava ao Caminho Geral do Sertão. O segundo nascia no porto de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, percorria o vale do rio São Francisco até a região mineradora. Acabou sendo o mais importante, devido à maior facilidade de transpor obstáculos naturais. A topografia e a proximidade da água tornou esse caminho o mais usado, pelo homem e pelo gado nordestino, em direção às áreas mineradoras. Em relação ao Sul do Brasil, também abriram-se caminhos, para o transporte de charque, de couro e do gado em pé. Saíam das estâncias sulinas, passavam por Vacarias, chegavam a Sorocaba, de onde seguiam para Minas Gerais, para Goiás e para Mato Grosso.





    • OS DESCAMINHOS DO OURO
    Por mais que a metrópole tentasse controlar a produção e a circulação do ouro, sempre houve muito desvio do metal precioso. Agir dentro da lei dependia muito da honestidade pessoal. Além disso, as poucas casas de fundição eram distantes dos centros produtores e a circulação de moedas era escassa. Assim, mineradores usavam o ouro para a compra de artigos de sua necessidade, frades não pagavam impostos e estimulavam outros habitantes a fazerem o mesmo. São famosos os “Santos do Pau Oco”, uma das muitas maneiras de lesar o fisco. Mercadores, tropeiros e traficantes de escravos recebiam e pagavam em ouro não quintado. Boa parte desse ouro chegava na África, levada por traficantes. Comandantes de navios levavam ouro contrabandeado para Lisboa. Produtos ingleses levavam mais uma parte ilegal do metal para Londres. Em outras palavras, o contrabando de ouro uniu os dois lados do Atlântico, tanto quanto o comércio lícito. Assim escreveu Antonil, em seu livro já citado: “E o pior é que a maior parte do ouro que se tira das minas passa em pó e em moedas para reinos estranhos e a menor é a que fica em Portugal e nas cidades do Brasil, salvo o que se gasta em cordões (...) e outros brincos, dos quais se vêem carregadas as mulatas de mau viver e as negras, muito mais que as senhoras.”





    • O OURO E O EMBRIÃO DA CLASSE MÉDIA
    A economia açucareira não permitiu a formação de uma classe intermediária entre o explorador senhor de engenho e o explorado escravo. Na mineração, caiu brutalmente a porcentagem de escravos; embora seu número absoluto tenha crescido, o número de trabalhadores livres cresceu muito mais. O surgimento do mercado interno, a urbanização do interior e a alta especialização do trabalho minerador forjaram uma nova classe, composta por pessoas que chegaram a atingir 30% da população. Essa classe média, nascida na mineração, passou por crises de retração e de expansão, acompanhando a economia, vindo a se consolidar nos fins do século XIX.





    • O OURO E A ADMINISTRAÇÃO PORTUGUESA
    Para Portugal, administrar significava fiscalizar. A legislação sobre a mineração era minuciosa e opressora. Um órgão foi criado em 1702, a Intendência das Minas, responsável, entre outras coisas, pela distribuição das datas em regiões auríferas. Em 1720, foram criadas as Casas de Fundição, para transformar o ouro em barras e cobrar impostos, principalmente o quinto, numa tentativa de eliminar o contrabando de ouro em pó e em pepitas, proibido de circular. Além do quinto (20%), havia a finta (cobrança fixa em ouro) e a capitação (cobrança por cabeça de escravo). Em 1750, em plena decadência da produção devido ao esgotamento das minas, foi extinta a capitação, mas fixado um tributo mínimo de 100 arrobas anuais por região, ou seja, um imposto de uma tonelada e meia em ouro. Caso tal quantia não fosse atingida, o rei poderia decretas a derrama, cobrança de impostos em atraso, que previa, inclusive, o confisco de bens dos devedores pela Coroa. Por outro lado, o eixo econômico e demográfico se transferia do Nordeste açucareiro decadente para o Centro-Sul em expansão. Soma-se a isso que as hostilidades entre portugueses e espanhóis no Sul do Brasil, envolvendo as disputas pelos Sete Povos das Missões e pela Colônia do Sacramento. Por isso, a capital do Brasil foi transferida de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763. Naqueles anos, a administração portuguesa tinha D. José I como rei e seu ministro, Pombal. Aplicava-se em Portugal e em suas colônias o racionalismo proposto pelo iluminismo, embora o Estado continuasse a ser absolutista. Era o chamado Despotismo Esclarecido.





    • O OURO E A PRODUÇÃO CULTURAL
    A mineração proporcionou a formação de uma elite branca rica e letrada. Muitos filhos dessas famílias abastadas foram estudar na Europa, principalmente nas universidades de Coimbra e de Montpellier. Assim, estudantes brasileiros ou luso-brasileiros tiveram contato direto com o fervor das idéias iluministas, fundadas na razão, críticas do Antigo Regime. Para a massa negra, escrava ou alforriada, para mulatos e para brancos pobres, poucas alternativas culturais restavam. Podiam frequentar as confrarias ou irmandades, associações voluntárias que assumiram o trabalho social de fundo caritativo, como o hospitalar, o educativo e até o lazer. As confrarias organizavam e custeavam as procissões religiosas, consideradas pelos pesquisadores como o divertimento favorito da população local. Para o estudioso Boxer, em livro já citado, o profano e o sagrado se misturavam nessas manifestações: “alegremente revestidas, ricamente decoradas, com seus mascarados, músicos, dançarinos, serviam às necessidades sociais (...). Oferecem a única oportunidade em que todas as classes se misturam em termos de igualdade aproximativa”. As irmandades tiveram ainda papel relevante nas obras arquitetônicas barrocas, principalmente na construção de igrejas. Nascido na Europa da Contrarreforma, o Barroco associava poder, religião católica e riqueza, o que não faltava no período da mineração. Na arquitetura e na escultura barrocas brasileiras, destacou-se Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Suas obras mais conhecidas estão em Congonhas do Campo e Ouro Preto. Na literatura produzida na época da mineração, salienta-se o Arcadismo, com obras de Cláudio Manuel da Costa e de Thomas Antônio Gonzaga, entre outras.





    • O OURO E A DEPENDÊNCIA PORTUGUESA
    Desde a União Ibérica (1580 a 1640) e das lutas pela Restauração do Trono, Portugal vinha caindo na dependência em relação à Inglaterra (procure a publicação desse assunto neste blog). Em 1703, Portugal e Inglaterra assinaram o Tratado de Methuen, mais conhecido por Tratados dos Panos e Vinhos, que consolidou a dependência lusa. A entrada de manufaturas inglesas a baixos preços e com tarifas aduaneiras também baixas matou as manufaturas portuguesas. Enquanto isso, o enriquecimento de colonos brasileiros, graças à mineração, fez aumentar o consumo de manufaturas e até de produtos de luxo. O desequilíbrio da balança comercial portuguesa era pago com o ouro brasileiro. Enquanto Portugal ancorava-se nos dogmas mercantilistas do capitalismo comercial, a Grã Bretanha acumulava suficiente capital para a passagem da manufatura para a maquinofatura, da oficina doméstica para a fábrica, para o capitalismo industrial.





    • O OURO, REVOLTAS DE ESCRAVOS E QUILOMBOS
    A escravidão em si já é uma violência. Essa não é apenas uma visão nossa, do século XXI. É, acima de tudo, uma visão de quem era, na época, escravizado. A tal violência soma-se a grave fome sofrida por todos os envolvidos no processo do início da mineração, nos finais do século XVII e início do XVIII. Pela lógica do sistema escravocrata, quem mais sofria era, evidentemente, o escravo. Diz a sabedoria popular que “onde há fome, não há lei”. Muitos escravos agiram individualmente contra a situação de penúria e passaram a roubar e a matar por comida. Porém, muitos se rebelaram coletivamente, fugindo e formando inúmeros quilombos, como o do Campo Grande, que chegou a abrigar mais de 15.000 pessoas.





    • O OURO E AS REVOLTAS COLONIAIS
    Em futura publicação trataremos de revoltas ligadas à mineração e ocorridas em Minas Gerais, como a Guerra dos Emboabas (1708/1709), a Revolta de Vila Rica, a de Felipe dos Santos (1720) e a Inconfidência Mineira (1789). Por enquanto, falaremos um pouco da Guerra dos Mascates, ocorrida em Pernambuco, entre 1709 e 1710.





    • O que uma revolta em Pernambuco, entre Olinda e Recife, tem a ver com a mineração, cujos centros produtores estavam, como vimos, em Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás?
    O essencial da resposta a esta pergunta encontra-se nesta mesma publicação. Peço que tentem a resposta e mandem pelos comentários. Prometo analisar e dar meu comentário para as respostas enviadas.





    • UMA VISÃO MARXISTA DA MINERAÇÃO
    Segundo Karl Marx, num sistema de produção, o importante não é o que se produz, mas como se produz. No caso do Brasil colonial, as exportações de açúcar totalizaram £300.000.000 (trezentos milhões de libras) e a de ouro apenas £150.000.000 (cento e cinquenta milhões de libras). Se o sistema dependesse apenas do total exportado, o açúcar teria sido muito mais importante nas transformações qualitativas na colônia. Contudo, as transformações proporcionadas pela mineração foram muito mais marcantes, quantitativa e qualitativamente, mudando a economia, a sociedade, a política, a geografia do território brasileiro, a ideologia.

    domingo, 20 de março de 2011

    SEBASTIANISMO

    A dinastia de Avis governou Portugal de 1383 a 1580. Entre 1383 e 1385, a Revolução de Avis evitou que Portugal perdesse sua independência. Em 1580, caiu nas mãos da Espanha.

    Durante a dinastia de Avis, Portugal formou seu império ultramarino, iniciado por D. João I. Entre 1495 e 1521, o trono foi ocupado por D. Manuel I, “o Venturoso”. Vasco da Gama chegou às Índias e Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil. O apogeu de Portugal ultramarino ocorre com D. João III, entre 1521 e 1557, com a colonização do Brasil. Metade do mundo era o Império Português.

    O colapso da dinastia e, por conseguinte, de Portugal, começou com D. Sebastião, “o Desejado”, rei de 1557 a 1578, tendo sido coroado com apenas três anos de idade. O governo ficou nas mãos de regentes, até a posse do jovem rei. D. Sebastião nunca se casou, apesar de muitos esforços palacianos nesse sentido. Não teve filhos, e a sua dinastia correu o risco de ficar sem herdeiro direto, o que, de fato, aconteceu. Católico radical, defensor das decisões da Contrarreforma, combateu os "infiéis". Invadiu o Marrocos para lutar contra muçulmanos e, na batalha de Alcácer-Quibir, seu exército foi destroçado. O corpo do rei jamais foi encontrado.

    Portugal passou a ser governado, até 1580, pelo cardeal D. Henrique, tio-avô de D. Sebastião. Com a morte deste, terminou a dinastia de Avis e começava a União Ibérica, com Felipe II da Espanha. Começava também o ocaso do império português, fragmentado a partir de então.

    O clima de frustração, de perda da independência, de desastre, atinge o povo luso, especialmente as camadas mais humildes, mais pobres, mais mal informadas, agarradas ao obscurantismo religioso. Para elas, a situação era um “castigo de Deus”. Acreditavam também na redenção dos males sofridos e que Portugal voltaria a ser poderoso. E a redenção seria liderada pela volta de D. Sabastião. O desaparecimento do corpo do rei tornou-se um mito. Nascia o sebastianismo, considerado por alguns estudiosos como o maior de todos os mitos portugueses e brasileiros.

    O sebastianismo tornou-se, então, um espécie da messianismo, uma crença justificadora da situação funesta e, ao mesmo tempo, aglutinadora de esperanças de melhores dias, como os dias do passado. O fenômeno foi tão forte que contagiou camadas mais esclarecidas e influenciou a produção literária, como a do Padre Vieira (1608 a 1697) e a do poeta Fernando Pessoa (1888 a 1935). Uma leitura mais atenta de Mensagem revela o forte sebastianismo na obra de Pessoa.

    Também a cultura brasileira sentiu os efeitos do sebastianismo. Várias revoltas internas tinham esse componente. A mais estudada é a liderada por Antônio Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, conhecida como Revolta de Canudos, nos primeiros anos da República. A comunidade de Canudos - seu cristianismo primitivo e messiânico, sem propriedade privada, com igualdade social - era odiada pelos latifundiários baianos, pela Igreja Católica e pela República, ainda em fase de consolidação.

    sábado, 12 de março de 2011

    Chris Hedges: Orwell estava certo. Huxley, também.

    As duas grandiosas visões sobre uma futura distopia foram as de George Orwell em 1984 e de Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo. O debate entre aqueles que assistiram nossa decadência em direção ao totalitarismo corporativo era sobre quem, afinal, estava certo. Seria, como Orwell escreveu, dominado pela vigilância repressiva e pelo estado de segurança que usaria formas cruas e violentas de controle? Ou seria, como Huxley anteviu, um futuro em que abraçariamos nossa opressão embalados pelo entretenimento e pelo espetáculo, cativados pela tecnologia e seduzidos pelo consumismo desenfreado? No fim, Orwell e Huxley estavam ambos certos. Huxley viu o primeiro estágio de nossa escravidão. Orwell anteviu o segundo.

    Temos sido gradualmente desempoderados por um Estado Corporativo que, como Huxley anteviu, nos seduziu e manipulou através da gratificação dos sentidos, dos bens de produção em massa, do crédito sem limite, do teatro político e do divertimento. Enquanto estávamos entretidos, as leis que uma vez mantiveram o poder corporativo predatório em cheque foram desmanteladas, as que um dia nos protegeram foram reescritas e nós fomos empobrecidos. Agora que o crédito está acabando, os bons empregos para a classe trabalhadora se foram para sempre e os bens produzidos em massa se tornaram inacessíveis, nos sentimos transportados do Admirável Mundo Novo para 1984. O Estado, atulhado em déficits maciços, em guerras sem fim e em golpes corporativos, caminha em direção à falência.
    [...]
    Orwell nos alertou sobre um mundo em que os livros eram banidos. Huxley nos alertou sobre um mundo em que ninguém queria ler livros. Orwell nos alertou sobre um Estado de guerra e medo permanentes. Huxley nos alertou sobre uma cultura de prazeres do corpo. Orwell nos alertou sobre um estado em que toda conversa e pensamento eram monitorados e no qual a dissidência era punida brutalmente. Huxley nos alertou sobre um Estado no qual a população, preocupada com trivialidades e fofocas, não se importava mais com a verdade e a informação. Orwell nos viu amedrontados até a submissão. Mas Huxley, estamos descobrindo, era meramente o prelúdio de Orwell. Huxley entendeu o processo pelo qual seríamos cúmplices de nossa própria escravidão. Orwell entendeu a escravidão.

    Agora que o golpe corporativo foi dado, estamos nus e indefesos. Estamos começando a entender, como Karl Marx sabia, que o capitalismo sem limites e desregulamentado é uma força bruta e revolucionária que explora os seres humanos e o mundo natural até a exaustão e o colapso.
    “O partido busca todo o poder pelo poder”, Orwell escreveu em 1984. “Não estamos interessados no bem dos outros; estamos interessados somente no poder. Não queremos riqueza ou luxo, vida longa ou felicidade; apenas poder, poder puro. O que poder puro significa você ainda vai entender. Nós somos diferentes das oligarquias do passado, já que sabemos o que estamos fazendo. Todos os outros, mesmo os que se pareciam conosco, eram covardes e hipócritas. Os nazistas alemães e os comunistas russos chegaram perto pelos seus métodos, mas eles nunca tiveram a coragem de reconhecer seus próprios motivos. Eles fizeram de conta, ou talvez tenham acreditado, que tomaram o poder sem querer e por um tempo limitado, e que logo adiante havia um paraíso em que os seres humanos seriam livres e iguais. Não somos assim. Sabemos que ninguém toma o poder com a intenção de entregá-lo. Poder não é um meio; é um fim. Ninguém promove uma ditadura com o objetivo de assegurar a revolução; se faz a revolução para assegurar a ditadura. O objeto da perseguição é perseguir. O objeto de torturar é a tortura. O objeto do poder é o poder”.
    O filósofo político Sheldon Wolin usa o termo “totalitarismo invertido” no livro “Democracia Ltda.” para descrever nosso sistema político. É um termo que não faria sentido para Huxley. No totalitarismo invertido, as sofisticadas tecnologias de controle corporativo, intimidação e manipulação de massas, que superam em muito as empregadas por estados totalitários prévios, são eficazmente mascaradas pelo brilho, barulho e abundância da sociedade de consumo. Participação política e liberdades civis são gradualmente solapadas. O Estado Corporativo, escondido sob a fumaça da indústria de relações públicas, da indústria do entretenimento e do materialismo da sociedade de consumo, nos devora de dentro para fora. Não deve nada a nós ou à Nação. Faz a festa em nossa carcaça.
    O Estado Corporativo não encontra a sua expressão em um líder demagogo ou carismático. É definido pelo anonimato e pela ausência de rosto de uma corporação. As corporações, que contratam porta-vozes atraentes como Barack Obama, controlam o uso da ciência, da tecnologia, da educação e dos meios de comunicação de massa. Elas controlam as mensagens do cinema e da televisão. E, como no Admirável Mundo Novo, elas usam as ferramentas da comunicação para aumentar a tirania. Nosso sistema de comunicação de massas, como Wolin escreveu, “bloqueia, elimina o que quer que proponha qualificação, ambiguidade ou diálogo, qualquer coisa que esfraqueça ou complique a força holística de sua criação, a sua completa capacidade de influenciar”.

    O resultado é um sistema monocromático de informação. Cortejadores das celebridades, mascarados de jornalistas, experts e especialistas, identificam nossos problemas e pacientemente explicam seus parâmetros. Todos os que argumentam fora dos parâmetros são desprezados como chatos irrelevantes, extremistas ou membros da extrema esquerda. Críticos sociais prescientes, como Ralph Nader e Noam Chomsky, são banidos. Opiniões aceitáveis cabem, mas apenas de A a B. A cultura, sob a tutela dos cortesãos corporativos, se torna, como Huxley notou, um mundo de conformismo festivo, de otimismo sem fim e fatal.
    Nós nos ocupamos comprando produtos que prometem mudar nossas vidas, tornar-nos mais bonitos, confiantes e bem sucedidos — enquanto perdemos direitos, dinheiro e influência. Todas as mensagens que recebemos pelos meios de comunicação , (...) nos prometem um amanhã mais feliz e brilhante. E isso, como Wolin apontou, é “a mesma ideologia que convida os executivos de corporações a exagerar lucros e esconder prejuízos, sempre com um rosto feliz”. Estamos hipnotizados, Wolin escreve, “pelo contínuo avanço tecnológico” que encoraja “fantasias elaboradas de poder individual, juventude eterna, beleza através de cirurgia, ações medidas em nanosegundos: uma cultura dos sonhos, de cada vez maior controle e possibilidade, cujos integrantes estão sujeitos à fantasia porque a grande maioria tem imaginação, mas pouco conhecimento científico”.

    Nossa base manufatureira foi desmantelada. Especuladores e golpistas atacaram o Tesouro dos Estados Unidos e roubaram bilhões de pequenos acionistas que tinham poupado para a aposentadoria ou o estudo. As liberdades civis, inclusive o habeas corpus e a proteção contra a escuta telefônica sem mandado, foram enfraquecidas. Serviços básicos, inclusive de educação pública e saúde, foram entregues a corporações para explorar em busca do lucro. As poucas vozes dissidentes, que se recusam a se engajar no papo feliz das corporações, são desprezadas como freaks.
    [...]
    A fachada está desabando. Quanto mais gente se der conta de que fomos usados e roubados, mais rapidamente nos moveremos do Admirável Mundo Novo de Huxley para o 1984 de Orwell. O público, a certa altura, terá de enfrentar algumas verdades doloridas. Os empregos com bons salários não vão voltar. Os maiores déficits da história humana significam que estamos presos num sistema escravocrata de dívida que será usado pelo estado corporativo para erradicar os últimos vestígios de proteção social dos cidadãos, inclusive a Previdência Social.
    O Estado passou de uma democracia capitalista para o neo-feudalismo. E quando essas verdades se tornarem aparentes, a raiva vai substituir o conformismo feliz imposto pelas corporações. O vazio de nossos bolsões pós-industriais, onde 40 milhões de norte-americanos vivem em estado de pobreza e dezenas de milhões na categoria chamada “perto da pobreza”, junto com a falta de crédito para salvar as famílias do despejo, das hipotecas e da falência por causa dos gastos médicos, significam que o totalitarismo invertido não vai mais funcionar.

    Nós crescentemente vivemos na Oceania de Orwell, não mais no Estado Mundial de Huxley. Osama bin Laden faz o papel de Emmanuel Goldstein em 1984. Goldstein, na novela, é a face pública do terror. Suas maquinações diabólicas e seus atos de violência clandestina dominam o noticiário noturno. A imagem de Goldstein aparece diariamente nas telas de TV da Oceania como parte do ritual diário da nação, os “Dois Minutos de Ódio”. E, sem a intervenção do Estado, Goldstein, assim como bin Laden, vai te matar. Todos os excessos são justificáveis na luta titânica contra o diabo personificado.
    A tortura psicológica do cabo Bradley Manning — que está preso há sete meses sem condenação por qualquer crime — espelha o dissidente Winston Smith de 1984. Manning é um “detido de segurança máxima” na cadeia da base dos Fuzileiros Navais de Quantico, na Virginia. Eles passa 23 das 24 horas do dia sozinho. Não pode se exercitar. Não pode usar travesseiro ou roupa de cama. Médicos do Exército enchem Manning de antidepressivos. As formas cruas de tortura da Gestapo foram substituídas pelas técnicas refinadas de Orwell, desenvolvidas por psicólogos do governo, para tornar dissidentes como Manning em vegetais. Quebramos almas e corpos. É mais eficaz. Agora todos podemos ir ao temido quarto 101 de Orwell para nos tornarmos obedientes e mansos.
    Essas “medidas administrativas especiais” são regularmente impostas em nossos dissidentes, inclusive em Syed Fahad Hasmi, que ficou preso sob condições similares durante três anos antes do julgamento. As técnicas feriram psicologicamente milhares de detidos em nossas cadeias secretas em todo o mundo. Elas são o exemplo da forma de controle em nossas prisões de segurança máxima, onde o estado corporativo promove a guerra contra nossa sub-classe política – os afro-americanos. É o presságio da mudança de Huxley para Orwell.
    “Nunca mais você será capaz de ter um sentimento humano”, o torturador de Winston Smith diz a ele em 1984.”Tudo estará morto dentro de você. Nunca mais você será capaz de amar, de ter amigos, do prazer de viver, do riso, da curiosidade, da coragem ou integridade. Você será raso. Vamos te apertar até esvaziá-lo e vamos encher você de nós”.

    O laço está apertando. A era do divertimento está sendo substituída pela era da repressão. Dezenas de milhões de cidadãos tiveram seus dados de e-mail e de telefone entregues ao governo. Somos a cidadania mais monitorada e espionada da história humana. Muitos de nós temos nossa rotina diária registrada por câmeras de segurança. Nossos hábitos ficam gravados na internet. Nossas fichas são geradas eletronicamente. Nossos corpos são revistados em aeroportos e filmados por scanners. Anúncios públicos, selos de inspeção e posters no transporte público constantemente pedem que relatemos atividade suspeita. O inimigo está em toda parte.
    Aqueles que não cumprem com os ditames da guerra contra o terror, uma guerra que, como Orwell notou, não tem fim, são silenciados brutalmente. Medidas draconianas de segurança foram usadas contra protestos no G-20 em Pittsburgh e Toronto de forma desproporcional às manifestações de rua. Mas elas mandaram uma mensagem clara — NÃO TENTE PROTESTAR.

    A investigação do FBI contra ativistas palestinos e que se opõem à guerra, que em setembro resultou em buscas em casas de Minneapolis e Chicago, é uma demonstração do que espera aqueles que desafiam o Newspeak oficial. Os agentes — ou a Polícia do Pensamento — apreenderam telefones, computadores, documentos e outros bens pessoais. Intimações para aparecer no tribunal já foram enviadas a 26 pessoas. As intimações citam leis federais que proíbem “dar apoio material ou recursos para organizações terroristas estrangeiras”. O Terror, mesmo para aqueles que não tem nada a ver com terror, se torna o instrumento usado pelo Big Brother para nos proteger de nós mesmos.
    “Você está começando a entender o mundo que estamos criando?”, Orwell escreveu. “É exatamente o oposto daquelas Utopias estúpidas que os velhos reformistas imaginaram. Um mundo de medo, traição e tormento, um mundo em que se atropela e se é atropelado, um mundo que, ao se sofisticar, vai se tornar cada vez mais cruel”.
    Published on Monday, December 27, 2010 by TruthDig.com

    terça-feira, 8 de março de 2011

    A UNIÃO IBÉRICA (1580 a 1640)

    Um dos mais importantes períodos da História de Portugal foi a União Ibérica, ou o “Domínio Espanhol”. Seus desdobramentos, durante a Revolução Comercial, alteraram profundamente a história europeia e mundial.

    Em 1578, com a morte de D. Sebastião em Alcácer Quibir, o trono luso foi ocupado pelo seu tio avô, Cardeal Dom Henrique, o último da Dinastia de Avis, morto em 1580. Felipe II, rei da Espanha, da família Habsburgo, interessado no tono português, apoiado pela nobreza e pela burguesia lusas, enviou o Duque de Alba para comandar a invasão de Portugal e afastar outros pretendentes, como D. Antônio, prior do Crato, este apoiado pela Inglaterra, pela França e pelo povo português. Naquele momento, a “Casa da Áustria” (os Habsburgos) dominava o Sacro Império Romano Germânico, a Espanha e suas colônias e, a partir de 1580, Portugal e suas colônias.

    Durante sessenta anos, a união das coroas ibéricas dominava vasta extensão do mundo, impondo um rígido controle comercial sobre as colônias através do pacto colonial. Portugal, embora tenha recebido certa autonomia, foi arrastado às guerras contra os inimigos da Espanha: França, Inglaterra e, principalmente, Holanda, tradicional sócia de Portugal no comércio internacional do açúcar.

    Na guerra contra a Inglaterra da Rainha Elisabeh I, Felipe II montou sua “Invencível Armada”, formada com navios espanhóis e portugueses. Em 1588, a Inglaterra saiu vitoriosa. Pouco restou da armada ibérica. O maior império territorial da época ficou praticamente incapaz de defender-se nos mares.

    Entre 1612 e 1615, no Maranhão, formou-se a França Equinocial. Os invasores franceses fundaram o forte de São Luís, hoje capital do Estado. Jerônimo de Albuquerque conseguiu derrotar os invasores depois de três anos de guerra. Além disso, Luís XIII, rei da França, casou-se com uma filha de Felipe III da Espanha o que facilitou a pacificação. Mas, o litoral do Brasil continuou sendo assediado pela ação de piratas e corsários, como Edward Fenton, Thomas Cavendish, Jaime Lancaster, Duclerc e Duguay-Trouin. O mesmo ocorria em outras colônias ibéricas.

    Para enfraquecer a Holanda, que pretendia (e conseguiu) separar-se do Sacro Império, Felipe II decretou o embargo do açúcar. Em função disso, a Holanda, que atuava na esfera da distribuição, decidiu invadir o Brasil açucareiro e assumir a produção, até então sob controle português. Em 1624 invadiu Salvador, capital da colônia. Expulsa dez meses depois, planejou nova invasão, iniciada em 1630, desta vez em Pernambuco, capitania hereditária de maior sucesso na produção do açúcar.

    A partir do Brasil Holandês, Maurício de Nassau invadiu as áreas fornecedoras de escravos negros na África portuguesa. Durante longos anos, a Holanda manteve o monopólio do tráfico negreiro para as áreas sob seu domínio. A falta da mão de obra escrava negra em outras áreas do Brasil fez subir o preço do índio nos mercados de escravos, incentivando o bandeirismo de apresamento. Outro fator para o crescimento da ação dos bandeirantes foi a suspensão da linha imaginária estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas em 1494.


    A Restauração Portuguesa ocorreu em 1640. O Duque de Bragança, com o apoio inglês, francês e holandês, derrotou Felipe IV, da Espanha. Foi coroado como D. João IV e deu início à última dinastia de Portugal. A Guerra de Restauração durou até 1668 e custou caro a Portugal, em função das alianças e dos tratados assinados.
    Com a Holanda, D. João IV assinou a Trégua dos Dez Anos (1641 a 1651) e o Tratado de Haia (1661), pelo qual Portugal cedeu as ilhas Molucas e o Ceilão, além de uma indenização de 4 milhões de Cruzados.
    Com a Inglaterra, uma série de tratados levaram à submissão de Portugal. Em 1642, foi estipulada a permissão de comércio direto com o Brasil, exceto de produtos considerados monopólio do rei, além de serem reduzidas as tarifas alfandegárias sobre produtos ingleses. Em 1661, houve o casamento de Dona Catarina de Bragança (filha de D. João IV) com Carlos II: o dote da noiva a seu real consorte foi o pagamento de 2 milhões de Cruzados, além dos territórios de Tanger e Bombaim.
    Em 1703, foi assinado o Tratado de Methuen, consagrando o domínio inglês sobre Portugal. Enquanto existiu, o ouro do Brasil sustentou o déficit luso.