quarta-feira, 6 de abril de 2011
UMA CONTRADIÇÃO DO ESTADO MODERNO PORTUGUÊS
No processo de formação das Monarquias Nacionais europeias, a aliança entre o rei e a burguesia foi fundamental para a centralização do poder político nas mãos do rei na luta contra o localismo político dos senhores feudais. Apoiado financeiramente pela burguesia, o rei formou um exército profissional para derrotar as forças da nobreza, constituídas, em sua maioria, por seus próprios servos que, na hora da luta, largavam a enxada e empunhavam a espada. Ao derrotar a nobreza, o rei não tomava seu feudo, nem seu título de nobreza. Tomava o poder político, impondo a padronização real das leis, dos pesos e medidas, dos tribunais, das leis, das moedas. Porém, mantinha os privilégios de nascimento e atraía a nobreza à sua corte real. Em outras palavras, a vitória político-militar do rei não implicou a destruição da nobreza, mas esta, outrora forte politicamente, tornou-se cortesã, vivendo às custas das benesses do Estado. Como diz Max Weber, “Após ter conseguido retirar da nobreza o poder político que ela detinha enquanto ordem, os soberanos a atraíram para a corte e lhe atribuíram funções políticas e diplomáticas.” (Max Weber, Política como Vocação) A monarquia centralizada, absolutista, equilibrava-se sobre as camadas sociais dialeticamente opostas: à burguesia emergente concedia privilégios econômicos, à nobreza decadente, privilégios de nascimento, jurídicos, diplomáticos e militares. O Estado Moderno, absolutista, deve ser entendido estruturalmente como transitório, entre o Estado feudal, dominado pela nobreza, e o Estado capitalista, dominado pela burguesia. No caso de Portugal, há muitas particularidades. Em primeiro lugar, o feudalismo, se é que houve, foi atípico, pois o monarca Borgonha e, depois, de Avis, era o único suserano, de todos os vassalos, diferente do feudalismo francês e inglês. Em segundo lugar, em função dos ideais da Contrarreforma, a intolerância religiosa atinge não só os protestantes cristãos, mas fundamentalmente os judeus, núcleo do grupo mercantil possuidor da maior parte do capital móvel de Portugal. Com D. Manuel I, consagra-se a expulsão dos judeus, e, com eles, a fuga da riqueza monetária. Aos judeus que não fugiram, restavam duas alternativas não excludentes entre si: ou tornam-se cripto judeus, com cultos hebraicos clandestinos, ou tornam-se cristãos novos, batizados católicos. Aí reside a contradição: no auge da expansão marítima e comercial, Portugal se descapitalizou e começou sua decadência. Daí a importância da associação com a nascente Holanda que, embora protestante, recebeu judeus e, com eles, seu capital móvel. Restava aos reis de Portugal dar privilégios à sua nobreza, titulada ou não. Na colonização do Brasil, como desdobramento da expansão marítima lusa, a maior parte das Capitanias Hereditárias foi entregue à pequena nobreza de Portugal.
terça-feira, 5 de abril de 2011
A MINERAÇÃO NO BRASIL COLONIAL


- O CICLO DO OURO
- O OURO, A FOME E O MERCADO INTERNO
- O OURO E A EXPLOSÃO DEMOGRÁFICA
- OS CAMINHOS DO OURO
- OS DESCAMINHOS DO OURO
- O OURO E O EMBRIÃO DA CLASSE MÉDIA
- O OURO E A ADMINISTRAÇÃO PORTUGUESA
- O OURO E A PRODUÇÃO CULTURAL
- O OURO E A DEPENDÊNCIA PORTUGUESA
- O OURO, REVOLTAS DE ESCRAVOS E QUILOMBOS
- O OURO E AS REVOLTAS COLONIAIS
- O que uma revolta em Pernambuco, entre Olinda e Recife, tem a ver com a mineração, cujos centros produtores estavam, como vimos, em Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás?
- UMA VISÃO MARXISTA DA MINERAÇÃO
domingo, 20 de março de 2011
SEBASTIANISMO
A dinastia de Avis governou Portugal de 1383 a 1580. Entre 1383 e 1385, a Revolução de Avis evitou que Portugal perdesse sua independência. Em 1580, caiu nas mãos da Espanha.
Durante a dinastia de Avis, Portugal formou seu império ultramarino, iniciado por D. João I. Entre 1495 e 1521, o trono foi ocupado por D. Manuel I, “o Venturoso”. Vasco da Gama chegou às Índias e Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil. O apogeu de Portugal ultramarino ocorre com D. João III, entre 1521 e 1557, com a colonização do Brasil. Metade do mundo era o Império Português.
O colapso da dinastia e, por conseguinte, de Portugal, começou com D. Sebastião, “o Desejado”, rei de 1557 a 1578, tendo sido coroado com apenas três anos de idade. O governo ficou nas mãos de regentes, até a posse do jovem rei. D. Sebastião nunca se casou, apesar de muitos esforços palacianos nesse sentido. Não teve filhos, e a sua dinastia correu o risco de ficar sem herdeiro direto, o que, de fato, aconteceu. Católico radical, defensor das decisões da Contrarreforma, combateu os "infiéis". Invadiu o Marrocos para lutar contra muçulmanos e, na batalha de Alcácer-Quibir, seu exército foi destroçado. O corpo do rei jamais foi encontrado.
Portugal passou a ser governado, até 1580, pelo cardeal D. Henrique, tio-avô de D. Sebastião. Com a morte deste, terminou a dinastia de Avis e começava a União Ibérica, com Felipe II da Espanha. Começava também o ocaso do império português, fragmentado a partir de então.
O clima de frustração, de perda da independência, de desastre, atinge o povo luso, especialmente as camadas mais humildes, mais pobres, mais mal informadas, agarradas ao obscurantismo religioso. Para elas, a situação era um “castigo de Deus”. Acreditavam também na redenção dos males sofridos e que Portugal voltaria a ser poderoso. E a redenção seria liderada pela volta de D. Sabastião. O desaparecimento do corpo do rei tornou-se um mito. Nascia o sebastianismo, considerado por alguns estudiosos como o maior de todos os mitos portugueses e brasileiros.
O sebastianismo tornou-se, então, um espécie da messianismo, uma crença justificadora da situação funesta e, ao mesmo tempo, aglutinadora de esperanças de melhores dias, como os dias do passado. O fenômeno foi tão forte que contagiou camadas mais esclarecidas e influenciou a produção literária, como a do Padre Vieira (1608 a 1697) e a do poeta Fernando Pessoa (1888 a 1935). Uma leitura mais atenta de Mensagem revela o forte sebastianismo na obra de Pessoa.
Também a cultura brasileira sentiu os efeitos do sebastianismo. Várias revoltas internas tinham esse componente. A mais estudada é a liderada por Antônio Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, conhecida como Revolta de Canudos, nos primeiros anos da República. A comunidade de Canudos - seu cristianismo primitivo e messiânico, sem propriedade privada, com igualdade social - era odiada pelos latifundiários baianos, pela Igreja Católica e pela República, ainda em fase de consolidação.
Durante a dinastia de Avis, Portugal formou seu império ultramarino, iniciado por D. João I. Entre 1495 e 1521, o trono foi ocupado por D. Manuel I, “o Venturoso”. Vasco da Gama chegou às Índias e Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil. O apogeu de Portugal ultramarino ocorre com D. João III, entre 1521 e 1557, com a colonização do Brasil. Metade do mundo era o Império Português.
O colapso da dinastia e, por conseguinte, de Portugal, começou com D. Sebastião, “o Desejado”, rei de 1557 a 1578, tendo sido coroado com apenas três anos de idade. O governo ficou nas mãos de regentes, até a posse do jovem rei. D. Sebastião nunca se casou, apesar de muitos esforços palacianos nesse sentido. Não teve filhos, e a sua dinastia correu o risco de ficar sem herdeiro direto, o que, de fato, aconteceu. Católico radical, defensor das decisões da Contrarreforma, combateu os "infiéis". Invadiu o Marrocos para lutar contra muçulmanos e, na batalha de Alcácer-Quibir, seu exército foi destroçado. O corpo do rei jamais foi encontrado.
Portugal passou a ser governado, até 1580, pelo cardeal D. Henrique, tio-avô de D. Sebastião. Com a morte deste, terminou a dinastia de Avis e começava a União Ibérica, com Felipe II da Espanha. Começava também o ocaso do império português, fragmentado a partir de então.
O clima de frustração, de perda da independência, de desastre, atinge o povo luso, especialmente as camadas mais humildes, mais pobres, mais mal informadas, agarradas ao obscurantismo religioso. Para elas, a situação era um “castigo de Deus”. Acreditavam também na redenção dos males sofridos e que Portugal voltaria a ser poderoso. E a redenção seria liderada pela volta de D. Sabastião. O desaparecimento do corpo do rei tornou-se um mito. Nascia o sebastianismo, considerado por alguns estudiosos como o maior de todos os mitos portugueses e brasileiros.
O sebastianismo tornou-se, então, um espécie da messianismo, uma crença justificadora da situação funesta e, ao mesmo tempo, aglutinadora de esperanças de melhores dias, como os dias do passado. O fenômeno foi tão forte que contagiou camadas mais esclarecidas e influenciou a produção literária, como a do Padre Vieira (1608 a 1697) e a do poeta Fernando Pessoa (1888 a 1935). Uma leitura mais atenta de Mensagem revela o forte sebastianismo na obra de Pessoa.
Também a cultura brasileira sentiu os efeitos do sebastianismo. Várias revoltas internas tinham esse componente. A mais estudada é a liderada por Antônio Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, conhecida como Revolta de Canudos, nos primeiros anos da República. A comunidade de Canudos - seu cristianismo primitivo e messiânico, sem propriedade privada, com igualdade social - era odiada pelos latifundiários baianos, pela Igreja Católica e pela República, ainda em fase de consolidação.
sábado, 12 de março de 2011
Chris Hedges: Orwell estava certo. Huxley, também.
As duas grandiosas visões sobre uma futura distopia foram as de George Orwell em 1984 e de Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo. O debate entre aqueles que assistiram nossa decadência em direção ao totalitarismo corporativo era sobre quem, afinal, estava certo. Seria, como Orwell escreveu, dominado pela vigilância repressiva e pelo estado de segurança que usaria formas cruas e violentas de controle? Ou seria, como Huxley anteviu, um futuro em que abraçariamos nossa opressão embalados pelo entretenimento e pelo espetáculo, cativados pela tecnologia e seduzidos pelo consumismo desenfreado? No fim, Orwell e Huxley estavam ambos certos. Huxley viu o primeiro estágio de nossa escravidão. Orwell anteviu o segundo.
Temos sido gradualmente desempoderados por um Estado Corporativo que, como Huxley anteviu, nos seduziu e manipulou através da gratificação dos sentidos, dos bens de produção em massa, do crédito sem limite, do teatro político e do divertimento. Enquanto estávamos entretidos, as leis que uma vez mantiveram o poder corporativo predatório em cheque foram desmanteladas, as que um dia nos protegeram foram reescritas e nós fomos empobrecidos. Agora que o crédito está acabando, os bons empregos para a classe trabalhadora se foram para sempre e os bens produzidos em massa se tornaram inacessíveis, nos sentimos transportados do Admirável Mundo Novo para 1984. O Estado, atulhado em déficits maciços, em guerras sem fim e em golpes corporativos, caminha em direção à falência.
[...]
Orwell nos alertou sobre um mundo em que os livros eram banidos. Huxley nos alertou sobre um mundo em que ninguém queria ler livros. Orwell nos alertou sobre um Estado de guerra e medo permanentes. Huxley nos alertou sobre uma cultura de prazeres do corpo. Orwell nos alertou sobre um estado em que toda conversa e pensamento eram monitorados e no qual a dissidência era punida brutalmente. Huxley nos alertou sobre um Estado no qual a população, preocupada com trivialidades e fofocas, não se importava mais com a verdade e a informação. Orwell nos viu amedrontados até a submissão. Mas Huxley, estamos descobrindo, era meramente o prelúdio de Orwell. Huxley entendeu o processo pelo qual seríamos cúmplices de nossa própria escravidão. Orwell entendeu a escravidão.
Agora que o golpe corporativo foi dado, estamos nus e indefesos. Estamos começando a entender, como Karl Marx sabia, que o capitalismo sem limites e desregulamentado é uma força bruta e revolucionária que explora os seres humanos e o mundo natural até a exaustão e o colapso.
“O partido busca todo o poder pelo poder”, Orwell escreveu em 1984. “Não estamos interessados no bem dos outros; estamos interessados somente no poder. Não queremos riqueza ou luxo, vida longa ou felicidade; apenas poder, poder puro. O que poder puro significa você ainda vai entender. Nós somos diferentes das oligarquias do passado, já que sabemos o que estamos fazendo. Todos os outros, mesmo os que se pareciam conosco, eram covardes e hipócritas. Os nazistas alemães e os comunistas russos chegaram perto pelos seus métodos, mas eles nunca tiveram a coragem de reconhecer seus próprios motivos. Eles fizeram de conta, ou talvez tenham acreditado, que tomaram o poder sem querer e por um tempo limitado, e que logo adiante havia um paraíso em que os seres humanos seriam livres e iguais. Não somos assim. Sabemos que ninguém toma o poder com a intenção de entregá-lo. Poder não é um meio; é um fim. Ninguém promove uma ditadura com o objetivo de assegurar a revolução; se faz a revolução para assegurar a ditadura. O objeto da perseguição é perseguir. O objeto de torturar é a tortura. O objeto do poder é o poder”.
O filósofo político Sheldon Wolin usa o termo “totalitarismo invertido” no livro “Democracia Ltda.” para descrever nosso sistema político. É um termo que não faria sentido para Huxley. No totalitarismo invertido, as sofisticadas tecnologias de controle corporativo, intimidação e manipulação de massas, que superam em muito as empregadas por estados totalitários prévios, são eficazmente mascaradas pelo brilho, barulho e abundância da sociedade de consumo. Participação política e liberdades civis são gradualmente solapadas. O Estado Corporativo, escondido sob a fumaça da indústria de relações públicas, da indústria do entretenimento e do materialismo da sociedade de consumo, nos devora de dentro para fora. Não deve nada a nós ou à Nação. Faz a festa em nossa carcaça.
O Estado Corporativo não encontra a sua expressão em um líder demagogo ou carismático. É definido pelo anonimato e pela ausência de rosto de uma corporação. As corporações, que contratam porta-vozes atraentes como Barack Obama, controlam o uso da ciência, da tecnologia, da educação e dos meios de comunicação de massa. Elas controlam as mensagens do cinema e da televisão. E, como no Admirável Mundo Novo, elas usam as ferramentas da comunicação para aumentar a tirania. Nosso sistema de comunicação de massas, como Wolin escreveu, “bloqueia, elimina o que quer que proponha qualificação, ambiguidade ou diálogo, qualquer coisa que esfraqueça ou complique a força holística de sua criação, a sua completa capacidade de influenciar”.
O resultado é um sistema monocromático de informação. Cortejadores das celebridades, mascarados de jornalistas, experts e especialistas, identificam nossos problemas e pacientemente explicam seus parâmetros. Todos os que argumentam fora dos parâmetros são desprezados como chatos irrelevantes, extremistas ou membros da extrema esquerda. Críticos sociais prescientes, como Ralph Nader e Noam Chomsky, são banidos. Opiniões aceitáveis cabem, mas apenas de A a B. A cultura, sob a tutela dos cortesãos corporativos, se torna, como Huxley notou, um mundo de conformismo festivo, de otimismo sem fim e fatal.
Nós nos ocupamos comprando produtos que prometem mudar nossas vidas, tornar-nos mais bonitos, confiantes e bem sucedidos — enquanto perdemos direitos, dinheiro e influência. Todas as mensagens que recebemos pelos meios de comunicação , (...) nos prometem um amanhã mais feliz e brilhante. E isso, como Wolin apontou, é “a mesma ideologia que convida os executivos de corporações a exagerar lucros e esconder prejuízos, sempre com um rosto feliz”. Estamos hipnotizados, Wolin escreve, “pelo contínuo avanço tecnológico” que encoraja “fantasias elaboradas de poder individual, juventude eterna, beleza através de cirurgia, ações medidas em nanosegundos: uma cultura dos sonhos, de cada vez maior controle e possibilidade, cujos integrantes estão sujeitos à fantasia porque a grande maioria tem imaginação, mas pouco conhecimento científico”.
Nossa base manufatureira foi desmantelada. Especuladores e golpistas atacaram o Tesouro dos Estados Unidos e roubaram bilhões de pequenos acionistas que tinham poupado para a aposentadoria ou o estudo. As liberdades civis, inclusive o habeas corpus e a proteção contra a escuta telefônica sem mandado, foram enfraquecidas. Serviços básicos, inclusive de educação pública e saúde, foram entregues a corporações para explorar em busca do lucro. As poucas vozes dissidentes, que se recusam a se engajar no papo feliz das corporações, são desprezadas como freaks.
[...]
A fachada está desabando. Quanto mais gente se der conta de que fomos usados e roubados, mais rapidamente nos moveremos do Admirável Mundo Novo de Huxley para o 1984 de Orwell. O público, a certa altura, terá de enfrentar algumas verdades doloridas. Os empregos com bons salários não vão voltar. Os maiores déficits da história humana significam que estamos presos num sistema escravocrata de dívida que será usado pelo estado corporativo para erradicar os últimos vestígios de proteção social dos cidadãos, inclusive a Previdência Social.
O Estado passou de uma democracia capitalista para o neo-feudalismo. E quando essas verdades se tornarem aparentes, a raiva vai substituir o conformismo feliz imposto pelas corporações. O vazio de nossos bolsões pós-industriais, onde 40 milhões de norte-americanos vivem em estado de pobreza e dezenas de milhões na categoria chamada “perto da pobreza”, junto com a falta de crédito para salvar as famílias do despejo, das hipotecas e da falência por causa dos gastos médicos, significam que o totalitarismo invertido não vai mais funcionar.
Nós crescentemente vivemos na Oceania de Orwell, não mais no Estado Mundial de Huxley. Osama bin Laden faz o papel de Emmanuel Goldstein em 1984. Goldstein, na novela, é a face pública do terror. Suas maquinações diabólicas e seus atos de violência clandestina dominam o noticiário noturno. A imagem de Goldstein aparece diariamente nas telas de TV da Oceania como parte do ritual diário da nação, os “Dois Minutos de Ódio”. E, sem a intervenção do Estado, Goldstein, assim como bin Laden, vai te matar. Todos os excessos são justificáveis na luta titânica contra o diabo personificado.
A tortura psicológica do cabo Bradley Manning — que está preso há sete meses sem condenação por qualquer crime — espelha o dissidente Winston Smith de 1984. Manning é um “detido de segurança máxima” na cadeia da base dos Fuzileiros Navais de Quantico, na Virginia. Eles passa 23 das 24 horas do dia sozinho. Não pode se exercitar. Não pode usar travesseiro ou roupa de cama. Médicos do Exército enchem Manning de antidepressivos. As formas cruas de tortura da Gestapo foram substituídas pelas técnicas refinadas de Orwell, desenvolvidas por psicólogos do governo, para tornar dissidentes como Manning em vegetais. Quebramos almas e corpos. É mais eficaz. Agora todos podemos ir ao temido quarto 101 de Orwell para nos tornarmos obedientes e mansos.
Essas “medidas administrativas especiais” são regularmente impostas em nossos dissidentes, inclusive em Syed Fahad Hasmi, que ficou preso sob condições similares durante três anos antes do julgamento. As técnicas feriram psicologicamente milhares de detidos em nossas cadeias secretas em todo o mundo. Elas são o exemplo da forma de controle em nossas prisões de segurança máxima, onde o estado corporativo promove a guerra contra nossa sub-classe política – os afro-americanos. É o presságio da mudança de Huxley para Orwell.
“Nunca mais você será capaz de ter um sentimento humano”, o torturador de Winston Smith diz a ele em 1984.”Tudo estará morto dentro de você. Nunca mais você será capaz de amar, de ter amigos, do prazer de viver, do riso, da curiosidade, da coragem ou integridade. Você será raso. Vamos te apertar até esvaziá-lo e vamos encher você de nós”.
O laço está apertando. A era do divertimento está sendo substituída pela era da repressão. Dezenas de milhões de cidadãos tiveram seus dados de e-mail e de telefone entregues ao governo. Somos a cidadania mais monitorada e espionada da história humana. Muitos de nós temos nossa rotina diária registrada por câmeras de segurança. Nossos hábitos ficam gravados na internet. Nossas fichas são geradas eletronicamente. Nossos corpos são revistados em aeroportos e filmados por scanners. Anúncios públicos, selos de inspeção e posters no transporte público constantemente pedem que relatemos atividade suspeita. O inimigo está em toda parte.
Aqueles que não cumprem com os ditames da guerra contra o terror, uma guerra que, como Orwell notou, não tem fim, são silenciados brutalmente. Medidas draconianas de segurança foram usadas contra protestos no G-20 em Pittsburgh e Toronto de forma desproporcional às manifestações de rua. Mas elas mandaram uma mensagem clara — NÃO TENTE PROTESTAR.
A investigação do FBI contra ativistas palestinos e que se opõem à guerra, que em setembro resultou em buscas em casas de Minneapolis e Chicago, é uma demonstração do que espera aqueles que desafiam o Newspeak oficial. Os agentes — ou a Polícia do Pensamento — apreenderam telefones, computadores, documentos e outros bens pessoais. Intimações para aparecer no tribunal já foram enviadas a 26 pessoas. As intimações citam leis federais que proíbem “dar apoio material ou recursos para organizações terroristas estrangeiras”. O Terror, mesmo para aqueles que não tem nada a ver com terror, se torna o instrumento usado pelo Big Brother para nos proteger de nós mesmos.
“Você está começando a entender o mundo que estamos criando?”, Orwell escreveu. “É exatamente o oposto daquelas Utopias estúpidas que os velhos reformistas imaginaram. Um mundo de medo, traição e tormento, um mundo em que se atropela e se é atropelado, um mundo que, ao se sofisticar, vai se tornar cada vez mais cruel”.
Published on Monday, December 27, 2010 by TruthDig.com
Temos sido gradualmente desempoderados por um Estado Corporativo que, como Huxley anteviu, nos seduziu e manipulou através da gratificação dos sentidos, dos bens de produção em massa, do crédito sem limite, do teatro político e do divertimento. Enquanto estávamos entretidos, as leis que uma vez mantiveram o poder corporativo predatório em cheque foram desmanteladas, as que um dia nos protegeram foram reescritas e nós fomos empobrecidos. Agora que o crédito está acabando, os bons empregos para a classe trabalhadora se foram para sempre e os bens produzidos em massa se tornaram inacessíveis, nos sentimos transportados do Admirável Mundo Novo para 1984. O Estado, atulhado em déficits maciços, em guerras sem fim e em golpes corporativos, caminha em direção à falência.
[...]
Orwell nos alertou sobre um mundo em que os livros eram banidos. Huxley nos alertou sobre um mundo em que ninguém queria ler livros. Orwell nos alertou sobre um Estado de guerra e medo permanentes. Huxley nos alertou sobre uma cultura de prazeres do corpo. Orwell nos alertou sobre um estado em que toda conversa e pensamento eram monitorados e no qual a dissidência era punida brutalmente. Huxley nos alertou sobre um Estado no qual a população, preocupada com trivialidades e fofocas, não se importava mais com a verdade e a informação. Orwell nos viu amedrontados até a submissão. Mas Huxley, estamos descobrindo, era meramente o prelúdio de Orwell. Huxley entendeu o processo pelo qual seríamos cúmplices de nossa própria escravidão. Orwell entendeu a escravidão.
Agora que o golpe corporativo foi dado, estamos nus e indefesos. Estamos começando a entender, como Karl Marx sabia, que o capitalismo sem limites e desregulamentado é uma força bruta e revolucionária que explora os seres humanos e o mundo natural até a exaustão e o colapso.
“O partido busca todo o poder pelo poder”, Orwell escreveu em 1984. “Não estamos interessados no bem dos outros; estamos interessados somente no poder. Não queremos riqueza ou luxo, vida longa ou felicidade; apenas poder, poder puro. O que poder puro significa você ainda vai entender. Nós somos diferentes das oligarquias do passado, já que sabemos o que estamos fazendo. Todos os outros, mesmo os que se pareciam conosco, eram covardes e hipócritas. Os nazistas alemães e os comunistas russos chegaram perto pelos seus métodos, mas eles nunca tiveram a coragem de reconhecer seus próprios motivos. Eles fizeram de conta, ou talvez tenham acreditado, que tomaram o poder sem querer e por um tempo limitado, e que logo adiante havia um paraíso em que os seres humanos seriam livres e iguais. Não somos assim. Sabemos que ninguém toma o poder com a intenção de entregá-lo. Poder não é um meio; é um fim. Ninguém promove uma ditadura com o objetivo de assegurar a revolução; se faz a revolução para assegurar a ditadura. O objeto da perseguição é perseguir. O objeto de torturar é a tortura. O objeto do poder é o poder”.
O filósofo político Sheldon Wolin usa o termo “totalitarismo invertido” no livro “Democracia Ltda.” para descrever nosso sistema político. É um termo que não faria sentido para Huxley. No totalitarismo invertido, as sofisticadas tecnologias de controle corporativo, intimidação e manipulação de massas, que superam em muito as empregadas por estados totalitários prévios, são eficazmente mascaradas pelo brilho, barulho e abundância da sociedade de consumo. Participação política e liberdades civis são gradualmente solapadas. O Estado Corporativo, escondido sob a fumaça da indústria de relações públicas, da indústria do entretenimento e do materialismo da sociedade de consumo, nos devora de dentro para fora. Não deve nada a nós ou à Nação. Faz a festa em nossa carcaça.
O Estado Corporativo não encontra a sua expressão em um líder demagogo ou carismático. É definido pelo anonimato e pela ausência de rosto de uma corporação. As corporações, que contratam porta-vozes atraentes como Barack Obama, controlam o uso da ciência, da tecnologia, da educação e dos meios de comunicação de massa. Elas controlam as mensagens do cinema e da televisão. E, como no Admirável Mundo Novo, elas usam as ferramentas da comunicação para aumentar a tirania. Nosso sistema de comunicação de massas, como Wolin escreveu, “bloqueia, elimina o que quer que proponha qualificação, ambiguidade ou diálogo, qualquer coisa que esfraqueça ou complique a força holística de sua criação, a sua completa capacidade de influenciar”.
O resultado é um sistema monocromático de informação. Cortejadores das celebridades, mascarados de jornalistas, experts e especialistas, identificam nossos problemas e pacientemente explicam seus parâmetros. Todos os que argumentam fora dos parâmetros são desprezados como chatos irrelevantes, extremistas ou membros da extrema esquerda. Críticos sociais prescientes, como Ralph Nader e Noam Chomsky, são banidos. Opiniões aceitáveis cabem, mas apenas de A a B. A cultura, sob a tutela dos cortesãos corporativos, se torna, como Huxley notou, um mundo de conformismo festivo, de otimismo sem fim e fatal.
Nós nos ocupamos comprando produtos que prometem mudar nossas vidas, tornar-nos mais bonitos, confiantes e bem sucedidos — enquanto perdemos direitos, dinheiro e influência. Todas as mensagens que recebemos pelos meios de comunicação , (...) nos prometem um amanhã mais feliz e brilhante. E isso, como Wolin apontou, é “a mesma ideologia que convida os executivos de corporações a exagerar lucros e esconder prejuízos, sempre com um rosto feliz”. Estamos hipnotizados, Wolin escreve, “pelo contínuo avanço tecnológico” que encoraja “fantasias elaboradas de poder individual, juventude eterna, beleza através de cirurgia, ações medidas em nanosegundos: uma cultura dos sonhos, de cada vez maior controle e possibilidade, cujos integrantes estão sujeitos à fantasia porque a grande maioria tem imaginação, mas pouco conhecimento científico”.
Nossa base manufatureira foi desmantelada. Especuladores e golpistas atacaram o Tesouro dos Estados Unidos e roubaram bilhões de pequenos acionistas que tinham poupado para a aposentadoria ou o estudo. As liberdades civis, inclusive o habeas corpus e a proteção contra a escuta telefônica sem mandado, foram enfraquecidas. Serviços básicos, inclusive de educação pública e saúde, foram entregues a corporações para explorar em busca do lucro. As poucas vozes dissidentes, que se recusam a se engajar no papo feliz das corporações, são desprezadas como freaks.
[...]
A fachada está desabando. Quanto mais gente se der conta de que fomos usados e roubados, mais rapidamente nos moveremos do Admirável Mundo Novo de Huxley para o 1984 de Orwell. O público, a certa altura, terá de enfrentar algumas verdades doloridas. Os empregos com bons salários não vão voltar. Os maiores déficits da história humana significam que estamos presos num sistema escravocrata de dívida que será usado pelo estado corporativo para erradicar os últimos vestígios de proteção social dos cidadãos, inclusive a Previdência Social.
O Estado passou de uma democracia capitalista para o neo-feudalismo. E quando essas verdades se tornarem aparentes, a raiva vai substituir o conformismo feliz imposto pelas corporações. O vazio de nossos bolsões pós-industriais, onde 40 milhões de norte-americanos vivem em estado de pobreza e dezenas de milhões na categoria chamada “perto da pobreza”, junto com a falta de crédito para salvar as famílias do despejo, das hipotecas e da falência por causa dos gastos médicos, significam que o totalitarismo invertido não vai mais funcionar.
Nós crescentemente vivemos na Oceania de Orwell, não mais no Estado Mundial de Huxley. Osama bin Laden faz o papel de Emmanuel Goldstein em 1984. Goldstein, na novela, é a face pública do terror. Suas maquinações diabólicas e seus atos de violência clandestina dominam o noticiário noturno. A imagem de Goldstein aparece diariamente nas telas de TV da Oceania como parte do ritual diário da nação, os “Dois Minutos de Ódio”. E, sem a intervenção do Estado, Goldstein, assim como bin Laden, vai te matar. Todos os excessos são justificáveis na luta titânica contra o diabo personificado.
A tortura psicológica do cabo Bradley Manning — que está preso há sete meses sem condenação por qualquer crime — espelha o dissidente Winston Smith de 1984. Manning é um “detido de segurança máxima” na cadeia da base dos Fuzileiros Navais de Quantico, na Virginia. Eles passa 23 das 24 horas do dia sozinho. Não pode se exercitar. Não pode usar travesseiro ou roupa de cama. Médicos do Exército enchem Manning de antidepressivos. As formas cruas de tortura da Gestapo foram substituídas pelas técnicas refinadas de Orwell, desenvolvidas por psicólogos do governo, para tornar dissidentes como Manning em vegetais. Quebramos almas e corpos. É mais eficaz. Agora todos podemos ir ao temido quarto 101 de Orwell para nos tornarmos obedientes e mansos.
Essas “medidas administrativas especiais” são regularmente impostas em nossos dissidentes, inclusive em Syed Fahad Hasmi, que ficou preso sob condições similares durante três anos antes do julgamento. As técnicas feriram psicologicamente milhares de detidos em nossas cadeias secretas em todo o mundo. Elas são o exemplo da forma de controle em nossas prisões de segurança máxima, onde o estado corporativo promove a guerra contra nossa sub-classe política – os afro-americanos. É o presságio da mudança de Huxley para Orwell.
“Nunca mais você será capaz de ter um sentimento humano”, o torturador de Winston Smith diz a ele em 1984.”Tudo estará morto dentro de você. Nunca mais você será capaz de amar, de ter amigos, do prazer de viver, do riso, da curiosidade, da coragem ou integridade. Você será raso. Vamos te apertar até esvaziá-lo e vamos encher você de nós”.
O laço está apertando. A era do divertimento está sendo substituída pela era da repressão. Dezenas de milhões de cidadãos tiveram seus dados de e-mail e de telefone entregues ao governo. Somos a cidadania mais monitorada e espionada da história humana. Muitos de nós temos nossa rotina diária registrada por câmeras de segurança. Nossos hábitos ficam gravados na internet. Nossas fichas são geradas eletronicamente. Nossos corpos são revistados em aeroportos e filmados por scanners. Anúncios públicos, selos de inspeção e posters no transporte público constantemente pedem que relatemos atividade suspeita. O inimigo está em toda parte.
Aqueles que não cumprem com os ditames da guerra contra o terror, uma guerra que, como Orwell notou, não tem fim, são silenciados brutalmente. Medidas draconianas de segurança foram usadas contra protestos no G-20 em Pittsburgh e Toronto de forma desproporcional às manifestações de rua. Mas elas mandaram uma mensagem clara — NÃO TENTE PROTESTAR.
A investigação do FBI contra ativistas palestinos e que se opõem à guerra, que em setembro resultou em buscas em casas de Minneapolis e Chicago, é uma demonstração do que espera aqueles que desafiam o Newspeak oficial. Os agentes — ou a Polícia do Pensamento — apreenderam telefones, computadores, documentos e outros bens pessoais. Intimações para aparecer no tribunal já foram enviadas a 26 pessoas. As intimações citam leis federais que proíbem “dar apoio material ou recursos para organizações terroristas estrangeiras”. O Terror, mesmo para aqueles que não tem nada a ver com terror, se torna o instrumento usado pelo Big Brother para nos proteger de nós mesmos.
“Você está começando a entender o mundo que estamos criando?”, Orwell escreveu. “É exatamente o oposto daquelas Utopias estúpidas que os velhos reformistas imaginaram. Um mundo de medo, traição e tormento, um mundo em que se atropela e se é atropelado, um mundo que, ao se sofisticar, vai se tornar cada vez mais cruel”.
Published on Monday, December 27, 2010 by TruthDig.com
terça-feira, 8 de março de 2011
A UNIÃO IBÉRICA (1580 a 1640)
Um dos mais importantes períodos da História de Portugal foi a União Ibérica, ou o “Domínio Espanhol”. Seus desdobramentos, durante a Revolução Comercial, alteraram profundamente a história europeia e mundial.
Em 1578, com a morte de D. Sebastião em Alcácer Quibir, o trono luso foi ocupado pelo seu tio avô, Cardeal Dom Henrique, o último da Dinastia de Avis, morto em 1580. Felipe II, rei da Espanha, da família Habsburgo, interessado no tono português, apoiado pela nobreza e pela burguesia lusas, enviou o Duque de Alba para comandar a invasão de Portugal e afastar outros pretendentes, como D. Antônio, prior do Crato, este apoiado pela Inglaterra, pela França e pelo povo português. Naquele momento, a “Casa da Áustria” (os Habsburgos) dominava o Sacro Império Romano Germânico, a Espanha e suas colônias e, a partir de 1580, Portugal e suas colônias.
Durante sessenta anos, a união das coroas ibéricas dominava vasta extensão do mundo, impondo um rígido controle comercial sobre as colônias através do pacto colonial. Portugal, embora tenha recebido certa autonomia, foi arrastado às guerras contra os inimigos da Espanha: França, Inglaterra e, principalmente, Holanda, tradicional sócia de Portugal no comércio internacional do açúcar.
Na guerra contra a Inglaterra da Rainha Elisabeh I, Felipe II montou sua “Invencível Armada”, formada com navios espanhóis e portugueses. Em 1588, a Inglaterra saiu vitoriosa. Pouco restou da armada ibérica. O maior império territorial da época ficou praticamente incapaz de defender-se nos mares.
Entre 1612 e 1615, no Maranhão, formou-se a França Equinocial. Os invasores franceses fundaram o forte de São Luís, hoje capital do Estado. Jerônimo de Albuquerque conseguiu derrotar os invasores depois de três anos de guerra. Além disso, Luís XIII, rei da França, casou-se com uma filha de Felipe III da Espanha o que facilitou a pacificação. Mas, o litoral do Brasil continuou sendo assediado pela ação de piratas e corsários, como Edward Fenton, Thomas Cavendish, Jaime Lancaster, Duclerc e Duguay-Trouin. O mesmo ocorria em outras colônias ibéricas.
Para enfraquecer a Holanda, que pretendia (e conseguiu) separar-se do Sacro Império, Felipe II decretou o embargo do açúcar. Em função disso, a Holanda, que atuava na esfera da distribuição, decidiu invadir o Brasil açucareiro e assumir a produção, até então sob controle português. Em 1624 invadiu Salvador, capital da colônia. Expulsa dez meses depois, planejou nova invasão, iniciada em 1630, desta vez em Pernambuco, capitania hereditária de maior sucesso na produção do açúcar.
A partir do Brasil Holandês, Maurício de Nassau invadiu as áreas fornecedoras de escravos negros na África portuguesa. Durante longos anos, a Holanda manteve o monopólio do tráfico negreiro para as áreas sob seu domínio. A falta da mão de obra escrava negra em outras áreas do Brasil fez subir o preço do índio nos mercados de escravos, incentivando o bandeirismo de apresamento. Outro fator para o crescimento da ação dos bandeirantes foi a suspensão da linha imaginária estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas em 1494.
A Restauração Portuguesa ocorreu em 1640. O Duque de Bragança, com o apoio inglês, francês e holandês, derrotou Felipe IV, da Espanha. Foi coroado como D. João IV e deu início à última dinastia de Portugal. A Guerra de Restauração durou até 1668 e custou caro a Portugal, em função das alianças e dos tratados assinados.
Com a Holanda, D. João IV assinou a Trégua dos Dez Anos (1641 a 1651) e o Tratado de Haia (1661), pelo qual Portugal cedeu as ilhas Molucas e o Ceilão, além de uma indenização de 4 milhões de Cruzados.
Com a Inglaterra, uma série de tratados levaram à submissão de Portugal. Em 1642, foi estipulada a permissão de comércio direto com o Brasil, exceto de produtos considerados monopólio do rei, além de serem reduzidas as tarifas alfandegárias sobre produtos ingleses. Em 1661, houve o casamento de Dona Catarina de Bragança (filha de D. João IV) com Carlos II: o dote da noiva a seu real consorte foi o pagamento de 2 milhões de Cruzados, além dos territórios de Tanger e Bombaim.
Em 1703, foi assinado o Tratado de Methuen, consagrando o domínio inglês sobre Portugal. Enquanto existiu, o ouro do Brasil sustentou o déficit luso.
Em 1578, com a morte de D. Sebastião em Alcácer Quibir, o trono luso foi ocupado pelo seu tio avô, Cardeal Dom Henrique, o último da Dinastia de Avis, morto em 1580. Felipe II, rei da Espanha, da família Habsburgo, interessado no tono português, apoiado pela nobreza e pela burguesia lusas, enviou o Duque de Alba para comandar a invasão de Portugal e afastar outros pretendentes, como D. Antônio, prior do Crato, este apoiado pela Inglaterra, pela França e pelo povo português. Naquele momento, a “Casa da Áustria” (os Habsburgos) dominava o Sacro Império Romano Germânico, a Espanha e suas colônias e, a partir de 1580, Portugal e suas colônias.
Durante sessenta anos, a união das coroas ibéricas dominava vasta extensão do mundo, impondo um rígido controle comercial sobre as colônias através do pacto colonial. Portugal, embora tenha recebido certa autonomia, foi arrastado às guerras contra os inimigos da Espanha: França, Inglaterra e, principalmente, Holanda, tradicional sócia de Portugal no comércio internacional do açúcar.
Na guerra contra a Inglaterra da Rainha Elisabeh I, Felipe II montou sua “Invencível Armada”, formada com navios espanhóis e portugueses. Em 1588, a Inglaterra saiu vitoriosa. Pouco restou da armada ibérica. O maior império territorial da época ficou praticamente incapaz de defender-se nos mares.
Entre 1612 e 1615, no Maranhão, formou-se a França Equinocial. Os invasores franceses fundaram o forte de São Luís, hoje capital do Estado. Jerônimo de Albuquerque conseguiu derrotar os invasores depois de três anos de guerra. Além disso, Luís XIII, rei da França, casou-se com uma filha de Felipe III da Espanha o que facilitou a pacificação. Mas, o litoral do Brasil continuou sendo assediado pela ação de piratas e corsários, como Edward Fenton, Thomas Cavendish, Jaime Lancaster, Duclerc e Duguay-Trouin. O mesmo ocorria em outras colônias ibéricas.
Para enfraquecer a Holanda, que pretendia (e conseguiu) separar-se do Sacro Império, Felipe II decretou o embargo do açúcar. Em função disso, a Holanda, que atuava na esfera da distribuição, decidiu invadir o Brasil açucareiro e assumir a produção, até então sob controle português. Em 1624 invadiu Salvador, capital da colônia. Expulsa dez meses depois, planejou nova invasão, iniciada em 1630, desta vez em Pernambuco, capitania hereditária de maior sucesso na produção do açúcar.
A partir do Brasil Holandês, Maurício de Nassau invadiu as áreas fornecedoras de escravos negros na África portuguesa. Durante longos anos, a Holanda manteve o monopólio do tráfico negreiro para as áreas sob seu domínio. A falta da mão de obra escrava negra em outras áreas do Brasil fez subir o preço do índio nos mercados de escravos, incentivando o bandeirismo de apresamento. Outro fator para o crescimento da ação dos bandeirantes foi a suspensão da linha imaginária estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas em 1494.
A Restauração Portuguesa ocorreu em 1640. O Duque de Bragança, com o apoio inglês, francês e holandês, derrotou Felipe IV, da Espanha. Foi coroado como D. João IV e deu início à última dinastia de Portugal. A Guerra de Restauração durou até 1668 e custou caro a Portugal, em função das alianças e dos tratados assinados.
Com a Holanda, D. João IV assinou a Trégua dos Dez Anos (1641 a 1651) e o Tratado de Haia (1661), pelo qual Portugal cedeu as ilhas Molucas e o Ceilão, além de uma indenização de 4 milhões de Cruzados.
Com a Inglaterra, uma série de tratados levaram à submissão de Portugal. Em 1642, foi estipulada a permissão de comércio direto com o Brasil, exceto de produtos considerados monopólio do rei, além de serem reduzidas as tarifas alfandegárias sobre produtos ingleses. Em 1661, houve o casamento de Dona Catarina de Bragança (filha de D. João IV) com Carlos II: o dote da noiva a seu real consorte foi o pagamento de 2 milhões de Cruzados, além dos territórios de Tanger e Bombaim.
Em 1703, foi assinado o Tratado de Methuen, consagrando o domínio inglês sobre Portugal. Enquanto existiu, o ouro do Brasil sustentou o déficit luso.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
ONDAS REBELDES
ONDAS REBELDES
No início de 2011, uma onda rebelde atingiu o mundo árabe. Para onde vai a História? Qual o papel e os interesses das massas populares? E das potências mundiais? E de Israel? Qual o papel do petróleo, ainda fundamental para mover o mundo industrial?
A crise de 2008 é uma fratura exposta do neoliberalismo. Os agentes econômicos, melhor dizendo, a burguesia, defendem o “Estado Mínimo” e a Lei de Mercado. Mas passaram o chapéu pedindo ao Estado que os salvassem.
A China continental, mantendo o Estado de partido único criado em 1949, ultrapassa vários Estados capitalistas e torna-se a segunda potência mundial. A continuar assim, o Pacífico poderá se tornar o novo eixo econômico e aéreo, substituindo o Atlântico, como este fez o Mediterrâneo minguar a partir da Revolução Comercial do século XV em diante. O litoral Oeste dos Estados Unidos e o litoral Leste chinês serão a moldura para o possível novo eixo econômico internacional.
As preocupações ecológicas começam a deixar de ser apenas discurso e, embora timidamente, passam a fazer parte das ações em todo o mundo. Há um novo internacionalismo no ar pois o planeta começa a ser visto como casa de todos, sem fronteiras, sem muros.
Mulheres assumem papel de liderança, incluindo de governos de vários Estados Nacionais e são aceitas como tal. O racismo, o preconceito, a intolerância, embora sobrevivam, encontram a cada dia mais combatentes nos setores mais avançados das sociedades e dos Estados.
O WikiLeaks usa a alta tecnologia do sistema para revelar que nem tudo são flores nem liberdade no sistema. A liberdade de imprensa e de pensamento é uma falácia? Só deve ser verdade se defender o sistema?
Há uma revolução subterrânea e cada vez menos silenciosa pulsando nos bastidores da História e da Geopolítica? Possivelmente os acontecimentos de 2011 no mundo árabe seja a ponta do novelo ainda enrolado. Talvez esteja nascendo um novo mundo, sem totalitarismos, sem ditaduras, sem fundamentalismos.
A ONDA CONSERVADORA DO SÉCULO XIX
Após a queda de Napoleão Bonaparte, em 1815, as forças de conservação saíram vencedoras no embate contra as forças de transformação. O absolutismo monárquico, fundado no feudalismo, no estamento e na teoria da origem divina do poder, sufocava a onda liberal iniciada pela Revolução Francesa. Era a Restauração, representada diplomaticamente nas reuniões do Congresso de Viena e militarmente pela criação da Santa Aliança, braço armado do Congresso. Os grandes vencedores foram, não por coincidência, os Quatro Grandes da época: Inglaterra, Rússia, Áustria e Prússia. Mas, enquanto os três últimos Estados se ancoravam na legitimidade do passado, olhando o futuro pelo retrovisor da História, a Inglaterra acendia seu farol alto em direção ao capitalismo.
Se pensarmos com a cabeça da alta burguesia britânica, não há contradição em apoiar a Restauração Absolutista no continente, mantendo seu atraso estrutural e, ao mesmo tempo, condenar a Restauração européia nas nascentes nações latino-americanas.
A onda liberal foi transportada para as Américas, ocorrendo a ruptura do pacto colonial ibérico. O monopólio comercial tinha fim, mas não a divisão internacional do trabalho. E a América Latina deixava de ser periferia do comercialismo ibérico e passava a ser periferia do industrialismo britânico.
Na Europa, o Congresso decidiu repartir a Polônia entre a Prússia, a Áustria e a Rússia. A Bélgica foi entregue à Holanda. A Áustria passou a dominar territórios italianos, como Veneza e Lombardia, e passou a liderar a Confederação Germânica.
A ONDA LIBERAL E NACIONALISTA DE 1820 E 1830
O liberalismo e o nacionalismo eram, naquele momento, forças de transformação contra a Europa de Metternich do Congresso de Viena. Uma onda rebelde ocorreu em 1820, na Confederação Germânica (futura Alemanha), na Itália (ainda não unificada), na Grécia, em Portugal e na Espanha.Em 1830, novas revoltas, na França, na Bélgica, na Polônia, na Alemanha, na Itália, em Portugal e na Espanha. Os fatores comuns eram os ideais liberais e nacionalistas, reprimidos na onda reacionária anterior; crises na produção de alimentos, levando à alta dos preços; falência de fábricas diante da concorrência de produtos ingleses; descontentamento do proletariado diante do desemprego, dos baixos salários e da extensa jornada de trabalho; descontentamento da burguesia em função da crise econômica e da política absolutista que a afastava do poder.
No caso as França, os Três Dias Gloriosos (27 a 29 de abril), vários setores marginalizados se uniram e derrubaram Carlos X, o último Bourbon. Afastado o rei, a burguesia adiantou-se no processo revolucionário e colocou outro rei no trono, Luís Felipe de Orleans, conhecido por Rei Burguês. Sintomático foi o depoimento de Jacques Lafitte, banqueiro que apoiou o golpe contra Carlos X: “De agora em diante, os banqueiros governarão a França!”
http://www.youtube.com/watch?v=xrdl7gqH-cs
A ONDA DE 1848 E A PRIMAVERA DOS POVOS
Em 1848, entra em cena um novo componente nas ondas revolucionárias, o socialismo. As causas das Revoluções de 1830 não tinham sido superadas e, pelo contrário, se aprofundaram. Pensadores do socialismo utópico, “romântico”, buscavam respostas para os desafios crescentes da crise. Naquele ano, o socialismo científico proposto por Marx e Engels ainda tinha pouca influência, pois o Manifesto Comunista, certidão de nascimento do marxismo acabara de ser publicado.Na França, ocorrera um crescimento do capitalismo industrial no governo de Luís Felipe. E a multiplicação das fábricas fazia crescer o número de operários, formando um proletariado significativo, mas alijado do poder pelo critério censitário nas eleições. Por outro lado, a corrupção, o conservadorismo e o autoritarismo da monarquia faziam crescer a opção republicana, os liberais, os bonapartistas, os legitimistas bourbônicos e os socialistas. Para alguns oposicionistas, a luta se esgotava na política. Para outros, era uma luta de classes, para mudar todas as estruturas.
Luís Felipe passou a reprimir as associações, a imprensa e até o Parlamento. Em fevereiro, as barricadas populares foram o núcleo da Revolução, atraindo outros setores, incluindo a burguesia.
Derrubado Luís Felipe, formou-se um Governo Provisório, composto por socialistas e por republicanos liberais. Nascia a Segunda República e, com ela, a volta da liberdade de imprensa, a anistia a presos políticos, estabelecido o direito à greve e a criação das Oficinas Nacionais, defendida por Luis Blanc como forma de eliminar o desemprego.
Mas a burguesia tratou logo de isolar e reprimir os avanços populares e socialistas. Unindo-se a grandes proprietários de terra e à Igreja, venceu as eleições para a Constituinte, usou a força armada contra o povo e consagrou sua vitória ao eleger Luís Napoleão para a Presidência da República.
Em toda a Europa, estava em curso a Primavera dos Povos. Inspirados nos franceses, a onda rebelde tinha cores liberais e nacionalistas. Na Itália, ressurgem as lutas pela unificação nacional e a disputa entre a liderança monárquica do Piemonte e a liderança republicana de Mazzini e Garibaldi. Na Confederação Germânica, a Prússia industrial tentava fazer nascer uma Alemanha para os alemães. Mais uma vez, a repressão conservadora saiu vitoriosa. Ainda não existia a Itália e a Alemanha.
AS ONDAS DE 1860 E 1870
Nas décadas de sessenta e setenta do século XIX, ocorreram novas ondas rebeldes, algumas revolucionárias. A Guerra de Secessão manteve a unidade nacional e consolidou o capitalismo nos Estados Unidos. A Revolução Meiji encerrou o tradicionalismo do shogunato e dos daimiôs, em direção ao capitalismo industrial no Japão. As guerras de unificação nacional desembocaram, finalmente, no nascimento da Alemanha (II Reich) e da Itália (Monarquia Constitucional) e no capitalismo industrial nessas novas nações.
A queda de Napoleão III diante da Prússia foi a conjuntura para o nascimento da Terceira República Francesa e da Comuna de Paris. Esta, de curta duração, foi uma antecipação da revolução proletária.
AS ONDAS DE 1930Nos anos vinte e trinta do século passado, ocorreram novas ondas rebeldes e de vários matizes. Na América Latina, caíram as oligarquias tradicionais dos caudilhos e coronéis e novas forças modernizadoras chegaram ao poder, definidas, mais tarde, como populistas.
Atingidas pela Grande Depressão, as democracias liberais europeias entraram em crise, enquanto crescia a influência soviética. Classes conservadoras, apavoradas com a vitória proletária e camponesa na União Soviética, passaram a apoiar o fascismo, extrema direita anticomunista. A Itália de Mussoline, a Alemanha de Hitler, Portugal de Salazar e a Espanha de Franco são os maiores exemplos.
AS ONDAS DOS ANOS 50 E 60
Em plena Guerra Fria, uma onda rebelde marcou a descolonização afro-asiática. É emblemática a Guerra do Vietnã, primeiro conflito midiático. Ultrapassou fronteiras e espalhou-se pelo mundo, colaborando decisivamente para os "anos rebeldes", nucleados em 1968.
Na América Latina, a começar pelo Brasil, a crise do populismo desembocou numa onda de ditaduras militares que perduraram até os anos oitenta.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Obsolescência Programada
Baterias que "morrem" em 18 meses de uso; impressoras bloqueadas ao alcançar um determinado número de impressões; lâmpadas que derretem em mil horas... Por que, apesar dos avanços em tecnologia, os produtos de consumo duram cada vez menos? Filmado na Catalunha, França, Alemanha, Estados Unidos e Gana, “Comprar, descartar, comprar” faz uma viagem através da história de uma prática empresarial que consiste na redução deliberada da vida útil de um produto, para aumentar o seu consumo pois, como publicado em 1928 em uma influente revista de publicidade estadunidense, “um artigo que não se deteriora é uma tragédia para os negócios." O documentário, dirigido por Cosima Dannoritzer e co-produzido pela TV espanhola, é o resultado de três anos de pesquisa; faz uso de imagens de arquivo pouco conhecido, fornece provas documentais e mostra as desastrosas conseqüências ambientais decorrentes dessa prática. Também apresenta vários exemplos do espírito de resistência que está crescendo entre os consumidores, e inclui a análise e opinião de economistas, designers e intelectuais que propõem alternativas para salvar a economia e o meio ambiente. Uma “luz” na origem da obsolescência planejada Tomas Edison fez a sua primeira lâmpada em 1881. Durou 1.500 horas. Em 1911, um anúncio na imprensa espanhola destacou os benefícios de uma marca de lâmpadas com um certificado de duração de 2.500 horas. Mas, como foi revelado no documentário, em 1924 um cartel que reunia os principais fabricantes na Europa e os Estados Unidos negociaram para limitar a vida útil de uma lâmpada elétrica à 1.000 horas. O cartel foi chamado “Phoebus” e, oficialmente, nunca existiu, mas, em “Comprar, descartar, comprar” é mostrado o ponto de partida de obsolescência planejada, que hoje é aplicado a produtos eletrônicos de última geração, como impressoras e iPods, e aplicada também na indústria têxtil. Consumidores rebeldes na era da Internet Ao longo da história do “vencimento previsto”, o filme descreve um período da história da economia nos últimos cem anos e mostra um fato interessante: a mudança de atitude nos consumidores, através do uso de redes sociais e da Internet. O caso dos irmãos Neistat, do programador de computador Vitaly Kiselev, e do catalão Marcos López demonstram isso. África, aterro eletrônico do Primeiro Mundo Este uso e descarte constantes têm graves conseqüências ambientais. Como vemos nesta pesquisa, países como o Gana estão se tornando a lixeira eletrônica do Primeiro Mundo. Até então, periodicamente, centenas de containers chegam cheios de resíduos, sob o rótulo de "material de segunda mão", e, eventualmente, tomar o lugar de rios ou campos onde as crianças brincam. Além da denúncia, o documentário dá visibilidade aos empresários que implementam novos modelos de negócio, e ouvem as alternativas propostas por intelectuais como Serge Latouche, que fala sobre empreender a revolução do “decrescimento”, a redução do consumo e a produção para economizar tempo e desenvolver outras formas de riqueza, como a amizade ou o conhecimento, que não se esgotam ao usá-los.
Agência de Notícias Anarquistas - ANA
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